SoPa de sobremesa. Quêm é a comunidade? #sopa14

NOTA PRÉVIA: Unicamente aponto ideias que me surgírom a raíz da participaçom no SOPA, ninguém o tome como umha crítica nem muito menos como um documento acabado. Apontamentos apenas.
Trabalhamos com a ideia de conseguirmos umha gestom patrimonial democrática e participada polas comunidades locais.
Consideramos, de jeito geral, que som os habitantes do contorno dum bem/complexo patrimonial, ou aqueles que partilham o seu significado (ou seja, aqueles que dalgum jeito geram identidade a partir do mesmo ou se identificam com ele), os sujeitos legítimos para atuar sobre ele, resignificá-lo e revalorizá-lo.

Se entendemos precisamente a ideia de património como um procomum, quêm decide até onde chega a comunidade? Fora da definiçom sociológica da mesma, onde pomos os limites de quêm tem direito a decidir sobre o património? E como podem fazê-lo?

1- Os que participam.
Tendemos a pensar em que é a toma de decisões assemblear, horizontal, informada e razoada a que legitima o sujeito.
No entanto, nom todo o mundo participa nos nossos projectos, e há diferentes jeitos de participar. Quê acontece com a gente que nom se integra? Com as que nom partilham esse jeito de decidir? Nom participa quem nom quer ou nom participa quem nom sabe/pode? Até que podo é o nosso labor facilitar essa participaçom?

2- Aqueles que participam de jeito “correcto”
Nom está todo património socializado em por sim? A aquiescência, a conformidade, a toleráncia som também jeitos de participar dessa gestom?

Até que ponto existe realmente a toma de decisões horizontal e democrática?, até que ponto nom se desenvolve em comunidades que possuem já estruturas e relações de poder prévia que determinam o jeito no que a gente participa em elas. (Há caciques, gente influínte, pessoas que nom se tenhem em conta, afinidades e ódios).
Ainda mais, a geraçom destas dinámicas pode favorecer a emergência de novas relações de poder (libertadoras ou nom) ou servir como apoio para status quo de desigualdade? (Alcaldes que podem ver afortalada a sua possiçom na comunidade mediante este tipo de actividades? comunidades de montes geridas de jeito caciquil?) quê consideramos umha comunidade informada?

Entom, somos nós, os técnicos, os que pomos esse limite? Desbotamos como ilegitima toda toma de decisom que nom se desenvolva de jeito horizontal? Deslegitimamos as instituições estatais e “democráticas” como agentes sobre o património? Nom limitamos entom o alcance possível dos efeitos? Podemos integrar agentes com diferentes poderes e diferentes jeitos de participar?

Do mesmo jeito, desacreditamos, por pouco democráticos, os jeitos capitalistas de utilizaçom do património? Negamos a sua mercantilizaçom, priorizamos a significaçom na própria comunidade do que a criaçom de ofertas turísticas? Quer dizer, se esse é o interesse da comunidade, devemos inibir-nos? Até onde?

3- Quem obtém identidade do bem/complexo patrimonial?

Nom só a comunidade local se identifica com cada elemento. Pode acontecer que pessoas além do lugar concreto tirem de ali elementos identitários. Seja como consciência dumha questom nacional, por identificaçom cumha época concreta, por gostos estéticos, por simbolismos religiosos, polo que for, há pessoas alheias ao local que dalgum jeito geram a sua identidade arredor do bem (pense-se, por exemplo, em Stonehenge). Há voluntários e trabalhadores que colaboram na iniciativa e que integram nas suas vidas os elementos, os próprios técnicos, investigadores e especialistas geram a sua identidade como tales a partir também da sua relaçom com os bens e as comunidades que os acompanham. E também estám os turistas, os empresários a gente que se interessa desde a distáncia e que, como olhamos cada vez mais, pode mobilizar-se de jeito importante arredor dum bem.
Entom, quêm pode e nom pode decidir ao respeto?

(continuaremos)

 

SoPa de sobremesa. Questões sobre a mobilizaçom patrimonial

(Sem ordem nem organizaçom, como corresponde a um quaderno de apontamento, tentarei ir recolhendo pensamentos e ideias que surgem a raíz da minha particiaçom no SoPa14)

“O mais importante ao falarmos de património e comunidade é a comunidade”, dizia Sabah (penso) nalgum momento do encontro. É claro. Já tenho apontado por aqui o potencial mobilizador do património, para mim mais intuído do que verificado, e o Congresso nom fixo mais que apontoar a ideia. Falamos dum elemento que possue nos nossos dias umha enorme capacidade para gerar identidades, empoderar grupos, activar participações e tudo o que se quiger em esse sentido.

Aparecem-me à volta destas possibilidades diferentes questões que agardo ir debulhando, especialmente em torno ao papel do técnico ou mediador (quêm sinala quê é importante?), dos jeitos em que se artelha a participaçom (quêm decide quê jeito de participaçom é ajeitado? só é aceitável aquele que se desenvolve em teóricos mecanismos assembleares?) e, em geral onde fica a legitimidade para agir e activar o património com fins sociais (onde fica a comunidade? vai para além do local?).

Nom está acaso sempre socializado o património? Nom existe acaso sempre um certo consenso (inestável e contraditório, como todos) já no jeito no que umha comunidade o considera? Outorgar-lhe de jeito tácito a ruínas e lugares que perdérom a sua funçom original outras funções de espaço periferico resulta também um jeito de socializar, de outorgar-lhe um papel no seo da comunidade, já seja para o consumo de drogas de diversos tipos, como espaço segregado para grupos de idade (crianças e adolescentes),  ou lugar para practicar sexo.

Iremos-lhe dando voltas.