Problemas / oportunidades

Os pataqueiros da Límia levam tempo a se queixar dos problemas que supom para a súa actividadae a declaraçom dumha Zona de Proteçom para Aves na zona. A Xunta, a lhes fazer caso, estuda o jeito de lhes minimizar o impacto.
Boa parte das terras de cultivo destes agricultores provenhem a dessecaçom da Lagoa de Antela, considerada no seu dia o maior (ou o segundo maior) humidal do Estado, em competência com o celebérrimo Doñana, uns 42 km quadrados. Os recentes temporais assolagárom umha pequena parte desta antiga extensom, o que de novo foi denunciado polos agricultores como um problema para o seu trabalho.

E paralelo, descobro os projectos para recuperar o chamado Mar de Campos, em Paléncia. E chama-me a atençom a declaraçom dum dos implicados: “Imagine lo que sería tener un Doñana en Palencia. Eso es a lo que aspiramos”.

Aqui nom somos quêm de o imaginar, embora está aí, a flor de terra. A questom é que devemos pensar quê modelo queremos. A produçom agrária e a soberania alimentar é claro que é fundamental. Mas quiçais o modelo de monocultivo estensivo, a base de destruír humidais, nom seja o mais ajeitado. Por nom falarmos das problemática periódica com os preços que sofrem os produtores de pataca polos actuais modelos de distribuiçom. Alguém terá botado as contas? Realmente som mais rendíveis as patacas do que os humidais?

O jogo periférico (II)

De jeito paralelo às mudanças estruturais no jeito de jogar, a mercantilizaçom dos jogos e brinquedos e a sua crescente mundializaçom e integraçom das indústrias do entretimento leva a que os jogos se acabem desenvolvendo sobre referentes culturais afastados. Assim entrárom nas nossas cidades o baseball, popularizou-se o basket e vemos como normal a celebraçom do Halloween. Ainda mais, olhamos os nossos cativos e cativas jogar a personagens televisivos, recriando os heróis vindos de américa. E nem tem por quê ser tam mau, nem tam determinante, podemos debater noutro momento até que ponto contamos sempre histórias semelhantes, como analisou Propp. Quiçais seja mais importante decatarmo-nos dos silêncios que se geram nos discursos sobre os que se desenvolve o jogo.

Se bem é singelo atopar o papel de heróis e de princesas nos mídia, papeis que noutros tempos se atopavam na vizinhança, nas histórias ouvidas na escola e na igreja, nos contos narrados na casa ou nas histórias que chegavam nas feiras, aparecem ausências importantes: nom há papeis periféricos, nem espaços periféricos nas representações que alimentam os jogos. Deportistas, luitadores, americanos vários tiram as posibilidades de que jogo seja umha escola de identificaçom com o contorno imediato. Nom há labregas nem trabalhadoras protagonistas. Nom aparecem os referentes do contorno imediato que nos permitam identificar-nos com figuras próximas. Por nom falar das línguas nas que se desenvolem os exemplos e que se acabam reproduzindo no jogo.

Fica pendente recuperarmos esses espaços periféricos. Podemos, por exemplo, dignificar o trabalho agrário desde a infáncia para aquelas crianças que habitam áreas rurais. Reivindicar o agro como imaginário para os jogos, situando-o no mesmo plano simbólico do que mundos afastados. Conheço um rapaz que só queria um tractor com pá escavadora e rotoempacadora, e nom deu atopado em tenda nengumha da sua contorna.Nom poder jogar com referentes do contorno mais imediato, nom é um primeiro passo de alheamento do mesmo?
Tentemos criar opções de jogos, de narrativas, achegadas. Tenhamos os nosso próprios personagens e heróis. Aplique-se o conto á língua e à cultura em geral. Por ai vai a ideia do Projecto Barriga Verde 😉

O jogo periférico (I)

Ai atrás veu-me à cabeça a ideia do jogo infantil, sobre tudo o chamado tradicional como actividade socialmente periférica.

Afastado em princípio do sistema produtivo (embora serve para definir os roles e as actitudes que logo deberám dialogar com esse sistema), é executado por seres periféricos (crianças) numha sociedade que tem no adulto masculino o seu eixo. Ademais, desenvolve-se (sobretudo de jeito tradicional) em espaços periféricos que nom tenhem usos produtivos: Prados, ruínas, praças, ruas pouco transitadas. É dizer, nas margens do sistema. Antón Cortizas lembrava acertadamente que é nas vilas onde melhor se mantenhem os entretimentos tradicionais. A existência de grupos de nenos, que já nom há nas aldeias, suma-se à conservaçom espaços mais ou menos livres nos que poder jogar.

Fronte a estas formas semelha que sofremos, como em tantos outros ámbitos, um proceso de controlo crescente. A introduçom do jogo na escola, a sua transformaçom em deportes regulamentados, a criaçom de espaços acotados e guiados para os jogos em parques e infantários ou os esforços pola sua inclusom na cadeia de produçom-consumo mediante videojogos e brinquedos industriais som exemplos destacados desta linha.

A questom é que estám a desaparecer dum jeito acelerado as formas de jogo “comunitárias” (acô outro estudo a ter em conta sobre o tema). Nom falo apenas dos entretimentos que se deixam de jogar, mas do próprio jeito de se relacionar entre as crianças durante o proceso. A criatividade própria da improvisaçom dos jogos, a manipulaçom da contorna para construír os próprios joguetes, os procesos comunais de toma de decisões ou os debates sobre as normas (e o jeito no que se observam ou nom) som algumhas das cousas que minguam ou desaparecem fronte a jogos fabricados e com normas claramente definidas. Mesmo sem sermos catastrofistas e reconhecendo que sempre (sempre) há possibilidades para a criatividade e reinterpretaçom, mesmo nas actividades mais regulamentadas, e mais em este ámbito, sim que semelha haver mudanças nas relações sociais da infáncia. E semelha que, como em outras questões, é na periferia onde é possível umha maior liberdade.

Umha boa mostras é este interessantíssimo estudo sobre a movilidade das crianças que amosa o jeito no que se reducírom os seus espaços de autonomia ao longo do último século (de seis millas a 300 jardas no exemplo). Atopamos entom umha diminuçom progressiva do espaço de acçom e da autonomia das crianças. Isto semelha aparelhar uma míngua similar do que consideramos “zonas seguras” para que transitem o qual, ao tempo, pode transmitir a ideia dum exterior “perigoso” que com certeza há condicionar a sua visom do mundo.

A existência de grupos de diferentes idades, nas que os maiores cuidam e ensinam (e abusam, e fam bulra) dos pequenos, som um fenómeno estranho nas cidades, e mais nas aldeias. Tenhem-me feito notar as urbanizações, com os seus espaços acotados, como novos espaços de actividade que permitem a formaçom de bandas de crianças com certa liberdade sempre dentro duns limites físicos e sociais (teórica compossiçom social homogênea dos habitantes). Em relaçom à autonomia espacial, o grupo revela-se, até certo ponto, como garante de seguridades para os máis novos ante os adultos: há membros nos que confiar, miram uns por outros. E isso permite também umha maior autonomia, umha possibilidade de espaços afastados dos adultos: A maior liberdade é possível só com outros, em companhia (mais umha liçom que se pode obter desse jeito de jogar).

Ainda mais, o jogo tradicional dá-lhe umha nova utilidade e mesmo pode ajudar ao mantemento de áreas periféricas abandonadas (desbroce, construçom de cabanas, cuidados de ruínas), resignifica lugares, desde umha velha escola até um antigo castro e dam-lhes um valor vencelhado ao lúdico (“onde jogam os nenos”).

Quê estamos a perder como sociedade? Como vam ser os nenos criados sem rua? Haverá muita diferença? Podem as relações que se desenvolvem no marco da escola suplir a anarquia dos grupos de jogos?
Até que ponto imos mudar?

Actualización: Peter Gray explica isto tudo muito melhor do que eu em este artigo.

Distintas olhadas sobre a arte

Jorde a polémica em Portugal polo jeito em que se restaurárom 13 figuras de culto do século XIX. A populaçom local amosa-se contente com o resultado e, como elemento novidoso num debate deste tipo, um restaurador profissional defende o seu trabalho com estas peças. Sem defender a sua actuaçom, gostava de o ouvir polo miúdo.

Para mim, como tenho comentado em outras ocasiões o caso amosa as diferentes perceições sobre a arte e o patrimônio.
Embora nom conheço polo miúdo a visom do restaurador, a nível popular, acho que predomina umha visom de “uso” destas figuras para o culto. A gente quer ver os santos “bonitos”. Em esse bonito semelha que se integram modelos mediáticos e “pop” de escultura contemporánea: o cartom pedra, os bonecos das falhas, as figuras de disney, os anúncios de bares, os objectos decorativos.

Nom há, nem possivelmente nunca houvo, unanimidade na perceiçom da arte na sociedade. O que as elites aprezavam e desprezavam nom era o mesmo do que o povo gostava. Havia, é claro trasvasses nos dous sentidos, e com o tempo modelos de esculturas “cultas” acabárom integrados no gosto popular. E hoje tenhem um valor de uso, nom apenas estético: nom só unicamente peças “para se conservar”.

Podemos debater quêm tem o direito a intervir nas peças, até que ponto os seus proprietários ou legatários podem decidir o quê fazer com elas ou como se podem conservar melhor. Mas devemos ser conscientes de que o patrimônio material tem usos, e que é fundamental contemplá-los como parte de qualquer acçom sobre o mesmo, como parte dum patrimônio imaterial vencelhado ao mesmo que se deve valorar, conservar, redefinir ou contextualizar.
Se nom, corremos os risto de que as peças fiquem apenas como objecto sem sentido no seu contexto imediato, que se perda o seu sentido.

Rural: terra baldia

(Vaia por diante que, como todo o publicado neste blog, isto é um rascunho feito apenas de impresões e pendente de verificações e contrastes).

Estes dias veu-me à cabeça a ideia de que a desertificaçom do rural transforma estas áreas num terreio baldio. A coindicir com um proceso crescente de urbanizaçom inédito, fica cada vez mais o que nom é cidade como um espaço a organizar em funçom de interesses, sujeitos, pautas eminementemente urbanos. E partamos da base de que a distinçom rural/urbano é totalmente arbitrária e artificial, já que (para além da existência do rururbano) na práctica o mundo hoje é totalmente urbano enquanto tudo (tal e como sinalo em este mesmo parágrafo) está penetrado de lógicas urbanas.

Nem votantes, nem consumidores
Por umha banda, a diminuiçom numérica dos habitantes rurais fai que estes deixam de ser protagonistas da políticas públicas e até nem se olhem como consumidores desde a iniciativa privada (por pura perda de peso numérico, polo suposto encarecemento de lhes achegar serviços ou por pautas de consumo pouco atractivas para grandes empresas).

Mais um actor
Entom, estas pessoam passam a ser apenas mais um actor entre outros a ter em conta à hora de abordar actuações e de legislar sobre o particular. E, no entanto, ganham peso outros usuários do rural: turistas e empresários turísticos, madeireiros, deportistas, caçadores, empresas mineiras ou energéticas (cada vez mais internacionalizadas e de maior tamanho) ou as próprias administrações. E, obviamente, nem todos os usuários tenhem o mesmo peso (e sempre ganha a banca).

Nom há estruturas
De jeito paralelo, dá-se um desartelhamento de estruturas (relacionado com um cámbio social acelerado) o que dá numha maior dificudade de artelhar respostas coletivas. A ausência de plataformas sentidas como próprias pola povoaçom rural fai que este ámbito seja campo aberto para iniciativas de exploraçom: eólicos, minas, barragens (que, ao igual que o feísmo, desenvolvem-se no baleiro).

Assim, tal e como já temos comentado, semelha que som necessários apoios externos (urbanos?) para desenvolver respostas a essas ameaças também urbanas. Mas nem sempre se consegue conectar com a própria povoaçom afectada, falar nos seus termos ou empregar a sua lógica para artelhar umha defesa.

Diversificaçom interna
Em relaçom com isto, o próprio conceito de habitante do rural sofre intensas transformações que fam que a teórica unidade e uniformidade salte definitivamente polos ares. Pessoas dedicadas a pequenas explorações agrárias a tempo completo, grandes gandeiros, residentes com actividade unicamente urbana, nom-residentes que, no entanto, mantenhem actividades parciais vencelhadas à terra e todo tipo de simbioses ocupacionais entre seitores primário-secundário e terciário mesturam-se com diferenças importantes (e suponho que crescentes) enquanto aos níveis de renda. Dá-se, polo tanto, umha multiplicaçom de interesses contrapostos dentro das pessoas que habitam o rural, a sumar á diversidade daqueles que som “usuários” da zona.

O exemplo da caça
Nos últimos anos, como exemplo destacado, observa-se um peso crescente do lobby a prol da caça nas legislações que estám a jurdir sobre esteste ámbito. Tanto a nível galego como no Estado, detecta-se umha tendência a legislar a prol da actividade cinegética em detrimento de quaisquer outros empregos do rural. Diminuiçom das áreas e das medidas de seguridade, ampliaçom da temporada e das espécies disponhíveis, direito preferente do uso do terreio (fronte a paseantes e habitantes) e mesmo umha menor responsabilidade por accidentes com animais fugidos dos cotos.

Observa-se entom que os caçadores (umha grande parte dos mesmos usuários mas nom residentes no rural) conseguem que se legisle a prol dos seus próprios interesses fronte aos de quaisquer outros usuários do rural (agás, se acaso, as empresas que actuam nesta área, acho que nom se vem muito afectadas pola caça e à inversa). Encol da ideia da actividade cinegética como “deporte popular”, embora muitos dos caçadores som asimesmo habitantes do rural, dá-me a impresom de que a actividade está nos últimos anos a incrementar os custos. Da pessoa que saia com o cam e a escopeta passamos, na actualidade, a quadrilhas organizadas nas que comprem carros todo-terreio, rádios, material de seguridade e, como nom, os gastos sociais que aparelha em copas, puros ou prostituiçom. Acho entom que podemos desmontar a ideia da caça como umha actividade democrática ou popular, e ao meu ver, pensarmos nos caçadores como mais umha minoria que “emprega” o monte.

Do mesmo jeito que caminhantes, turistas, recoletores de cogomelos, pescadores ou, por desgraça, os próprios habitantes do rural, que semelham cada vez mais presos no seu próprio contorno de interesses alheios.

Transforma-se entom o rural numha área para a exploraçom empresarial ao tempo que adquire o carácter de cenário e paisagem para actividades turísticas e cinegéticas. Legisla-se sobre a área a miúdo sem ter em conta os interesses dos afectados, que se atopam atrapados em legislações a miúdo pensadas para favorecer a outros agentes e que nom contemplam contraprestações (ou as que contemplam resultam insuficientes) para eles.

Vejam-se as problemáticas com os danos polos javalis e os lobos (e as diferentes perceições duns e outros como ameaça segundo se fale com agricultores ou com gandeiros), com compensações que chegam tarde e mal. Os medos aos parques naturais e as suas limitações. As vantagens para o uso de eólicos e os monocultivos arbóreos. As legislações sobre património e as normativas urbanísticas.

E isto tudo sobre umha povoaçom que, numha grande parte dos casos, carece de ferramentas para compreender a legislaçom que se lhe aplica e que a miúdo é enganada, manipulada (ao tempo que também engana e manipula) por agentes alheios.

E logo ainda nos perguntamos por quê arde o monte.

Umha sociedade de festa

Ponhamo-nos, por exemplo, en 1914. Um dia de semana qualquer. Um homem e umha mulher novos atopam-se numha aldeia galega. Ele está a sachar com pouco ímpeto e ela vai caminho dalgumha tarefa.

– Antón, tes mala cara! Andas doente ou?
– Cala, Carme cala, que ontem juntamo-nos na casa do da Pantera e acabamos às tantas. Mimadrinha que perda de papeis. Nom bebemos mais vinho porque nom havia! Vaia festa! Hoje erguim-me tardíssimo e agora nom há quem trabalhe. Estou por ir já para a casa durmir.

O diálogo é totalmente inventado, e só pretende amosar o relativamente estranha que nos pode parecer a situaçom. E é que, mália às investigações de recuperaçom musical e da recuperaçom dos fiadeiros, seráns e similares, acho que a imagem geral da sociedade tradicional (como sempre, empregue-se o termo com todas as reservas) non contempla a importáncia das festas.

É dizer: o diálogo poderia ser pefeitamente real, mas para umha grande parte da povoaçom galega há resultar chocante, ao amosar uns comportamentos (festa, alcool, desleixo polo trabalho) que se contemplam como negativos e que mesmo se adoitan vencelhar à mocidade e à modernidade.

E, no entanto, é sabido que había festas. Mais, transmitiu-se essa imagem, o conhecimento dos jeitos festeiros que existiam no rural?

Acho que muito se perdeu. Em boa medida porque é nos próprios ámbitos festivos onde se transmite esse conhecimento na forma de anédotas, canções e lembranças. Assim, sabemos histórias das verbenas e das festas patronais porque estas (ainda) se mantenhem vivas (e mesmo se revitalizam, como sostém Garcia Porral). Canda a elas, mantenhem-se os jeitos e as histórias dos jantares familiares, e chegam ecos de como se celebrava o Entroido.

Mas é bem possível que permaneçamos na inoráncia de como eram os encontros noturnos que se davam nas casas de jeito improvisado, ao melhor com os nenos já na cama. Ou como ser armavam as festas com motivo das tarefas coletivas. Nesse sentido, o trabalho de recuperaçom dos seráns e dos fiadeiros ham ser fonte para os seus participantes dum bom feixe de anédotas e dum maior conhecimento dos jeitos de festa dos nossos maiores.

Por quê essa ruptura da transmissom? Porque nom estamos a falar do tipo de conhecimento que se transmite exactamente de pais a filhos. As trasnadas, os maus hábitos, os encontros com o sexo oposto ou as cantigas de carácter sexual nom fam parte do conhecimento que chega dentro da família (de jeito geral). Cómpre umha transmissom diferente. Irmaos maiores, encontros de amigos de diferentes idades, gente alheia à casa que conta histórias de mocidade. Circunstáncias que, na desertizaçom rural, no agrupamento das crianças por idades nas escolas e, em geral, na modernidade, nom se dam. A gente maior quer amosar umha boa imagem de sim mesma, e mais aos filhos e aos netos. Nom contarám como se embebedavam ou como andavam a mocear. Falarám do esforço contínuo, do trabalho, das dificuldades e dos sacrifícios para criar os filhos.

E é que, insisto, é no contexto específico onde se produz essa transmissom. Assim, ainda hoje os velórios, bem menos festivos, dam para lembrar no tanatório como transcorriam antes as cousas. Eu mesmo ouvim por vez primeira ao meu pai cantar um cantar de cego quando fomos os dous sozinhos a umha voda, já eu com quinze anos. E por aquela altura também um amigo dele contou algumhas trasnadas da sua mocidade. Cousas que nom se lhes contam aos nenos. Mas esses contextos festivos desaparecem, como tantas outras cousas.

Se a essa falta de transmissom sumamos a imagem que se está a geral sobre o rural, como um espaço no que nom acontece nada, tudo vai a modo e os habitantes som sobretudo gente de idade que bota o dia tudo a trabalhar sem descanso, gera-se a (falsa) impresom de que sempre foi assim e desaparece mesmo a curiosidade por conhecer essoutro ámbito.

E, no entanto, é sabido que nom faltavam ocasiões para a festa. Que o número de dias feriados era moi superior ao actual e que aos de cada paróquia havia que sumar as festas das paróquias vizinhas. E as festas vencelhadas às tarefas coletivas (esfolhar, colheitar, segar, fiar), as muinhadas, as feiras e romarias, os encontros improvisados…

Muitas ocasiões que, nom digo eu que se aproveitassem sempre, mas que quiçais devamos ter mais em conta quando pensemos em como era a vida entom…

A relaçom com a natureza é cultural

Um artigo em vários meios galegos sobre a resistência e o jeito a sobrelevar perdas e catástrofes amosa algum dos prejuíços mais comuns sobre Galiza, a ideia dumha “autenticidade” identitária que jorde da terra.

No texto, pom-se na boca de Juan Luís Pintos (reconhecido sociólogo cuns interessantes trabalhos sobre imaginários sociais que tenho pendentes de ler a fundo) toda umha série de declarações que abondam no mesmo ponto:
‘Yo diría que en Galicia estamos más cerca de los elementos primarios y de los importantes desde el punto de vista vital. Todavía no estamos desarraigados
y carecemos del principio de anonimato propio de las ciudades’.
‘Tenemos una cosa que no se da en otros lugares y es que estamos más cerca de los orígenes campesinos que de los urbanos. Es decir, aunque la gente viva en ciudades, todavía mantiene unas ciertas raíces que hacen que la gente esté menos alejada de sus elementos vitales’
‘En Galicia estamos en una situación en la que existe una mayor cercanía a los elementos básicos de la vida, que son fundamentalmente los familiares o el paisaje’
‘¿por qué la gente se va a pasear a la orilla del mar con olas de nueve metros?, pues porque le gusta; otro ciudadano huye del peligro, está más separado de los recursos que tienen que ver con las cercanías vitales, con sus orígenes’.
‘el carácter gallego es más resistente, tiene una capacidad mayor de resistencia. Habitar en ciudades debilita las capacidades de resistencia frente a fenómenos naturales, porque no se vive en ciudades, se vive en hábitats cerrados al margen de lo que sucede fuera’

Para além de que nom entendo a quê se refere com os elementos “vitais e primários”, a repetiçom do argumento fai-me pensar que nom é umha descontextualizaçom do jornalista (o qual nom deixaria de amosar os mesmos prejuíços.

A ideia, amplamente estendida, simplifica enormemente a complexidade da sociedade galega. Em cidades como A Corunha ou Vigo, nas suas áreas metropolitanas e mesmo a nível de vila desenvolvem-se desde há anos jeitos de convivência todalmente urbanos, nos que existe esse anonimato que Pintos renega. Aliás, se bem podemos entender que há um alto número de pessoas que retornavam e retornam à aldeia na fim de semana, está por ver até que ponto isso implica umha conexom com “elementos vitais”. Do mesmo jeito, este mesmo fenómeno refuta a ideia da cidade como hábitat fechado. Para além: somos mais naturais que quêm? A quem estamos a considerar “civilizados” e afastados do meio?

Falar dum carácter galego mais resistente às desgraças por um maior contacto coa natureza parece-me umha simplificaçom perigosa, nom exenta de elementos coloniais. Situa umha comunidade complexa e variada numha situaçom de “bons selvagens”, autênticos e naturais mas, pola mesma, atrasados e com maiores dificuldades de se enfrontar à anovaçom. Em Gabom, o diretor dum museo etnográfico explicava que os pigmeos estavam mais próximos à natureza do que outras tribos do país. E engadia a seguir. “Conhecem a selva como ninguém. Som o elo entre o animal e o ser humano”. Este tipo de razoamentos adoita levar ao mesmo lugar.

Embora Pintos chega a mencionar a família, acho que óbvia o componhente de relações sociais e práticas culturais que podem explicar essa suposta (está por ver se é real) resistência da sociedade galega actual ante catástrofes, que ele vencelha a essa misteriossa conexom com elementos primordiais e à natureza. Precisamente é em esses ámbitos onde se situa a possiçom de Gondar na que no texto, no entanto, nom se deixa claro que já nom nos situamos numha sociedade tradicional, que os jeitos “modernos” de se enfrontar à morte estám presentes entre nós.

É dizer. A gente do mar nom é que leve melhor as desaparições e accidentes porque olhem o mar a diário e trabalhem em ele. Em todo o caso farám-no (os que o fagam) porque vivem numha comunidade que lhes ensinou que o mar é assim, que se podem agardar perdas desse tipo, que lhes ofertou ferramentas, ditos e crenças com os que gerir de determinado jeito a dor. No entanto, essas redes sociais, o sentimento comunitário ou o apoio mútuo nom som fenómenos uniformes em todo o território nem em todos os ámbitos sociais. As enemizades, invejas e agressões fam também parte da vida em comunidade, nom esquezamos.

A relaçom com a natureza é também umha relaçom cultural.

A dualidade do Apalpador

Surpreende aos investigadores atopar testemunhos que apresentam o Apalpador como um personagem ao que se lhe tinha medo e com o que se ameaçava aos nenos. Dentro dos relativamente poucos testemunhos que se conservam mestura-se a missom do personagem como portador de agasalhos e como justicieiro que castigava comportamentos desviados nos mais pequenos.

No entanto, nom é tam estranha a dualidade dos personagens vencelhados ao Solstício de Inverno. Se já os próprios Reis Magos, com toda a depuraçom e infantilizaçom à que se tenhem visto submetidos, mantenhem ainda o castigo na forma de deixar carvões, noutros lugares divide-se o papel de recompensa e de castigo entre dous personagens, como é o caso do Pai Natal e do Krampus ou de personagens como o Knecht Ruprecht que também carregam, como o nosso Apalpador, sacos, o segundo mesmo cheio de borralha.
Recentemente, atopei umha mínima referência da zona da Lama, independente em contexto do Pandigueiro, que fai referência ao feito de “sentir que o apalpam a um” quando está sozinho como um aviso de morte, o que pode ser um ingrediente a engadir á complexidade deste mito e estar vencelhado ao seu aspecto terrorífico.

Assim, há indícios (ver o imprescindível Teoria de Inverno) que apontam o personagem galego como umha máscara de Entroido que cumpre a funçom de passar por diante das casas a fazer barulho e manchar con borralha. Há a possibilidade de que mesture dous ou mais personagens prévios num só ente, ou que fosse noutros lugares onde um personagem original acabasse escindido em dous. Segundo a família ou o lugar puido prevalecer umha ou outra funçom, e soster-se o rito do “apalpadoiro” que os fais faziam aos filhos (deixando as castanhas e propiciando um ano de fartura) em detrimento do personagem/máscara que agasalha ou castiga.

Do que no nom fica dúvida é de que estamos ante um elemento bem complexo, e que a nossa pescuda nom se pode reduzir a localizar presença ou a ausência dum carvoeiro que traz agasalhos. Há indícios de personagem, de rito, de comportamento dual, de máscara de entroido e de muitos outros elementos. Num momento no que somos muitos os que queremos contribuír a recuperar o nosso patrimônio e tradições devemos procurar indagar na complexidade dum fenómeno, quanto mais interessante a mais indefinido.

(Lembrar, a fazer autobombo e publicidade que na Adra número 7, editada polo Museu do Povo Galego, pode ler-se um artigo meu sobre o proceso de recuperaçom desta figura en contextos urbanos).


ENGADIDO:
Lembra-me o Xabier Seixo a existência do filme Sint, que gerou umha importante polémica por apresentar um Sant Niklas terrorífico, e mais do Pai Natal de Futurama, que semelham actualizações nas margens (ou nom tam margens?) da cultura pop dessa parte escura do personagem que o mainstream da cultura occidental obviou ou agochou.

Sinalar é dar existência

ADEGA, Ríos con Vida e AGCT descobren 45 km de ríos sen identificar no PXOM de Lugo

Aquilo que nom é reconhecido oficialmente nom é patrimônio. Deixamos nas maos das adminstrações as ferramentas para o definir e, polo tanto, o construír.
Apenas iniciativas de acçom social, como é este caso, podem contrarrestar o discurso vertical em esse sentido e patrimonializar e reivindicar elementos.

O patrimônio para grande parte da sociedade é aquilo que está sinalizado, reconhecido, restaurado, é explotável turisticamente ou em ocasiões, pode ser motivo de orgulho. Se nom cumpre essas condições nom é patrimônio.

O regato ao que o concelho nom fai caso nom pode ser patrimônio. Os muínhos e os lavadoiros nom reconhecidos nem sinalizados nom som patrimônio. Se acaso som impedimentos para a edificaçom, obstáculos em relaçom a outras actividades.

Nom podemos esquecer, no entanto, que existem usos e reinterpretações contínuas dos espaços e dos bens patrimoniais, embora os mesmos nom sejam explícitos nem actuem como reivindicações ante a administraçom: Verter lijo, limpar as cubas do purim, espaços periféricos de recreio ou de introspeçom, vivendas precárias.
Ao marcá-los publicamente, a o denunciar, esses regatos ganham entidade, fam-se elementos cuns valores em si mesmos que, ademais, estám protegidos pola lei.

Com casos como este verifica-se o efeito e as possíveis causas do desconhecemento.
O nom reconhecimento oficial dá via livre. A lógica capitalista das construçom e a exploraçom do território como jeito direto de benefício impom-se fronte a outras considerações.

Na reivindicaçom patrimonial, no entanto, joga também em boa medida esta mesma lógica. A possibilidade do patrimônio como recurso económico de exploraçom indirecta. E presta-se também a certas perversões.
Temos recursos para proteger tudo? Para quê o queremos proteger? Quê usos se lhes podem dar a esses elementos? As limitações que impom essa protecçom para outros usos pode ser contraproducente de cara à perceiçom social destes bens? A síntese está por fazer, mas desde logo as visões enfrontadas nom partem dumha igualdade de condições em relaçom ao poder. E o que se destrua nom vai poder ser reutilizado ou reinterpretado no futuro…

O valor dos engadidos como patrimônio

No seu momento, construír um local com feitio de castelo onda os restos dum castelo autêntico era aceitado como um jeito de pôr em valor, de visibilizar um monumento.

Hoje, em Vigo considera-se esse engadido como umha mistificaçom que deve ser derruvada.

E chega um inglês a reivindiacar o valor desse edifício por sim mesmo, merca-o e vai-no reconstruír em Gales. Ademais, anúncia o seu interesse na intrahistória do próprio local, em conhecer a sua origem e funcionamento, e denúncia que em Inglaterra os responsáveis da demoliçom dum edifício assim iriam à cadeia.

Com certeza, se o edifício nom estivesse onda restos de maior antigüidade, teria ocasiom de contar cumha maior protecçom institucional, como outras construções na mesma cidade (com a mesma, bem pode ser que nom).

Estamos num momento no que se segue a considerar o patrimônio a partir das peças em sim, congeladas num momento concreto. Pode-se reconstruír um castelo (ou mosteiro, como em Carboeiro) mas cómpre despojá-lo de elementos que nom se correspondam com a sua época. Se um claustro serviu de corte, isso nom pode ficar em evidência na posta em valor (agardemos a ver como fica Pambre). De cara à gestom institucional, os monumentos som unicamente o que forom num momento concreto, embora a sociedade lhes fosse dando usos com mais ou menos respecto.

Poida que com o tempo vaia mudando essa visom, e se passe a considerar os bares e os solos de cemento, os esforços por restaurar a base de formigom ou integrando numha casa os restos do paço, que as cortes nos claustros e as pegadas da história social desses monumentos passem a fazer parte também do que se pensa que é necessário proteger…