Um ajeitado epitáfio

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A falta dumha semana para abandonar Compostela como lugar de habitaçom logo de 20 anos (fica como espaço de trabalho), acodo às Cheverografias. A visita com audioguia pola memória urbana atravês da história de Chévere é um certeiro retrato das transformações que viveu a cidade no tempo que levo aqui (e que já começaram algo antes). A gentrificaçom, a turistificaçom, a diminuiçom e institucionalizaçom da vida cultural, a desapariçom de espaços livres… Constantes sobre as que reflicto a miúdo aparecem no percurso.

Esse caminho por lugares que já nom som o que forom, por edifícios hoje fechados ao público, reconvertidos em negócios para turistas, em espaços mortos a agardar pola especulaçom, em sés institucionais e bancárias é altamente revelador. O ficarmos a olhar lugares hoje mortos para a comunidade enquanto se escuita o que houvo lá noutro momento é um exercício com algo de oraçom e de homenagem a outro tempo.

Fica o passeio como um epitáfio ajeitado ao fim desta etapa, minha e do lugar. Compostela nom é a que foi, e nom será. Eu mesmo vou passar a vivê-la doutro jeito. A cidade nom vai voltar a aqueles tempos nos que o controlo do grande capital e das instituições (ainda em formaçom) sobre o espaço e a vida era bem menor ao de hoje. Ainda nom estava tudo tam penetrado por lógicas verticais e alheias ao lugar.

Mas, no entanto, nom se pode ser catastrofistas. Continua a haver vida. A outro nível, noutro jeito. Nom está a Casa Encantada, nem Chévere, nem tantos locais, nem tanta criatividade, possivelmente. Mas está o Matadoiro, as associações vezinhais de Sam Pedro ou de Sar, os coletivos de skaters, os de hip-hop, os de teatro, as editoras, os grupos de música, as salas de concertos os centros sociais, os Estudos em Mao Comum, o passeio de Jane, as hortas urbanas, a Semente, os grupos de pais e mais que se autoorganizam, as cooperativas de consumo, o Mercado da Choiva.
A vida, feita por nós, além de governos e de instituições, noutros lugares e doutros jeitos. Poida que à sombra do turismo, poida que agochada por baixo dos grandes slogans da publicidade, mas está.
E há que a viver e a trabalhar. Lá imos.

Dias das Letras

Logo duns aninhos a repassar os Dias das Letras Galegas, interessado em particular no jeito no que se celebra a efeméride, semelha-me que os eventos desta data reflictem em boa medida e evoluçom da nossa própria cultura.

Deste jeito, este ano a celebraçom de Manuel Maria semelha evidenciar a importáncia dos produtos culturais para cativos na profissionalizaçom do sector cultural. Em esse sentido, muitos artistas e companhias aproveitárom o potencial de Manuel Maria para a sua própria criaçom artística, com a ideia de que os trabalhos sobre este autor haviam acadar umha importante demanda este ano (e tal semelha). Como efeito colateral desta busca de rendibilidade (totalmente legítima) temos que o que em outros anos podiam ser homenagens de associações e concelhos artelhados em boa medida em base a trabalho voluntário de colectivos locais, passam a ser eventos “contratados” (e poida que mais uniformes). Da outra banda, devemos pensar que isto permite a supervivência de profissionais da música e das artes escénicas e que ao tempo dá pé a existência de obras artísticas de grande qualidade. O fenómeno tem prós e contras.

Ao tempo, podemos contar as empresas como parte da sociedade civil? Em esse sentido, as propostas deste ano continuam a tendência doutras celebrações anteriores nas que semelha que se lhes retira às instituições oficiais (Xunta, CCG, RAG, Universidades, Deputações) o protagonismo ou a exclussividade sobre a celebraçom e (para mim o mais importante) a interpretaçom que se fai dos autores. Assim, este ano temos um Manuel Maria reivindicado como autor para cativas, e nom apenas o poeta ou o creador comprometidos que se nos vendia até o momento. E isto responde a um interesse comercial, mas também situa o autor em relaçom com as inquedanças actuais da nossa cultura, que semelha estar especialmente focada ao problema da transmissom intergeracional da língua.

No entanto, devemos ser conscientes de que a celebraçom do Dia das Letras está a amosar umha importante plasticidade ano a ano (quando menos desde que eu o sigo polo miudo). Logo da multiplicaçom de agentes implicados que se deu o ano de Novoneyra, a explossom que foi o de Lois Pereiro, cumha inédita participaçom social, mudou em boa medida as perspectivas sobre o que poderia ser um Dia das Letras diferente, artelhado além das instituições.

Desde aquela cada homenageado marcou em boa medida o jeito no que a sociedade empregava a figura. Deste jeito, Filgueira ficou em 2015 de novo nas maos das instituições (embora provocou interessantes reacções alternativas), e Paz Andrade nom conseguiu arrastar muitas propostas, para além do movimento que se produziu arredor a ILP com o seu nome.

Si acadou umha maior pegada Vidal Bolaño, cum protagonismo partilhado entre companhias, instituições e sociedade civil. Destacou o caso de Diaz Castro. Quiçais por ser um autor maiormente por descobrir, aproveitou-se enormemente o potencial inspirador para diferentes criadores, nesta ocasiom cum peso especial do ámbito audiovisual. Em este caso é de destacar que se bem o sector apostou por comemorar o autor, numha importante parte dos casos as produções desenvolverom-se de jeito altruístas e voluntário. Visibilizar o seu trabalho ou denunciar a situaçom de precariedade fórom em certo jeito as mensagens que se achegárom com estas propostas, do mesmo jeito que a escena do país se reivindicou a través de Vidal Bolaño.

Em geral, a resumir estes anos, semelha que a sociedade civil e as empresas estám a colher, nos casos em que olham por onde, a iniciativa para celebrar os autores homenaxeados e os interpretar desde as problemáticas actuais da nossa cultura. A crescente multiplicidade de agentes vai acompanhada dumha aparente consolidaçom profissional no campo cultural. Até que ponto o Dia das Letras vai ficar como umha “produçom cultural das Letras”? Há depender do autor, semelha.

Sobre os hábitos culturais esses

Logo de botar uns dias a peneirar e interpretar estes números , segundo os quais os nossos hábitos culturais (na enquisa maiormente assimilados a consumo cultural) estám por detrás da meia estatal, jordem-me várias ideias, como sempre aventuradas e sem base (apontamentos em fim).

1- Nesgo urbano. Acho que inevitavelmente um estúdio como este conta cumha infrarrepresentaçom do rural galego. Dispersom, dificuldade de obter respostas, qualidade das mesmas…
Por aqui, na página 4 explicam a seleiçom de mostras. Para quem as entenda… (“El tipo de muestreo es bietápico con estratificación de unidades de primera etapa, considerando cada comunidad autónoma una población independiente. Las unidades de muestreo de primera etapa fueron las secciones censales y las unidades de segunda etapa la población de 15 años en adelante. Dentro de cada comunidad autónoma se
realizó una estratificación de las unidades de primera etapa conforme al tamaño del municipio al
que pertenece cada sección. El tamaño de la muestra teórica se situó, aproximadamente, en 16.500 unidades de segunda etapa, personas de 15 años en adelante. Los tamaños muestrales de primera etapa vinieron condicionados por el número medio de entrevistas por sección, que se fijó en 14 considerando fundamentalmente razones de coste y eficacia en los trabajos de campo….). A mim supera-me. E o caralho é que os pensamentos que me jordem dos dados, levam-me a pensar no rural.

2- A consideraçom de actividades culturais no estudo está, como já comentei, orientada fundamentalmente às indústrias culturais (a incluír mídia) e às propostas mais vencelhadas à ideia de “alta cultura” (museus, leitura…). Com esta orientaçom, fai-me pensar: a quê se dedica entom a gente na Galiza, se nom fai estas cousas? Pensa um em conversas, visitas, café, estar com gente, manter comunidades. A gente que canta num jantar ou realiza pequenas obras de artesania constestou a considerar estas actividades culturais? Contar contos e histórias cotizam neste inquérito?

3- Destacamos no consumo mídia de comunicaçom. É umha questom de acceso? A mim quadra-me cumha sociedade em cámbio social acelerado no que grande parte da povoaçom emprega imprensa, rádio e TV como jeitos de tentar compreender a realidade. Baseio-me fundamentalmente em casos concretos, conhecidos e próximos. (Sim, por compreender também considero ler as esquelas).

4- O acceso como problema aparece sinalado em vários dos apartados (museus, bibliotecas). Nom no cinema, se bem outros estudos sim apontam a inexistência de salas na proximidade como um dos motivos para nom asistir. É a dispersom povoacional que lastra esse consumo?

5- No entanto, o desinteresse aparece como principal motivo para nom desenvolver as sinaladas prácticas culturais. Entom será que a oferta nom conecta pola povoaçom. Quem é o responsável? Como se poderia arranjar?

6- O maior interesse polas actividades criativas, responde ao mantemento de formas mais tradicionais de produçom e consumo (menos mediados por administraçom e indústria) cultural?

7- Os culturetas existem. Gente que lê tudo o que nom lê o resto da povoaçom, que vê filmes na casa desesperadamente e que escuita música a barrer… De acordo, nom som as mesmas pessoas, mas a concentraçom destas e doutras atividades (menos gente do que a meia emprega mais tempo) deve sinalar algo.

Sei lá enfim. Era bom irmo-lo pensando…

Sem saída

venecia

Ponhamo-nos tremendistas. Nom há saída. O turismo de massas invade progressivamente todos os destinos que poidamos pensar. Acabou-se Venécia, Florência, Barcelona, Compostela. Passa tudo a ser parque temático. A realidade fica restringida a urbanizações periurbanas, aldeias esquecidas zonas industriais feias e sem particularidades que ainda resistem a maré.

A planificaçom urbana fai-se a pensar nos turistas, a programaçom cultural e para turistas, a cidade passa a ser para clientes que deixam os cartos em troca a viver o que é um simulacro para o cal cada lugar que estar à sua altura. Toda França, Itália inteira é umha montra para tirar fotografias. As ruínas passam a ser atractivos, os bairros vermelhos som apenas engado para visitantes, Londres é um espectáculo a tentar semelhar o que agarda o mundo dele. Os lugares de vida passam a ser lugares que visitar e que olhar, cenários.

Nesse contexto, dificulta-se viver experiências diferentes nos destinos. Tudo é produto para o visitante. Tours organizados, serviços estandarizados, centros de interpretaçom e museus similares orientados a explotar supostas diversidades. Cá sol, lá história, arte, costumes, arquitectura.

Do mesmo jeito, produz-se o inevitável choque dos habitantes (feitos despraçados, refugiados de cidades que já nom existem, atrapados por uma mitologia projectada cara ao exterior e que nom reconhecem, privados dos seus espaços pola maré humana, pola exploraçom selvagem do lugar) e esses visitantes aferrados ao seu guia, aos estándares de qualidades, aos pacotes de desfrute concentrados. Esvae-se a opóm de socializar. As relações em destino ficam mediatizadas polo intercámbio mercantil, polo carácter de invasor e invadido, polas expectativas foráneas.

Faltará, penso desde há tempo, a criaçom de espaços onde se poida gerar o encontro. Será da minha experiência como anfitriom de Couchsurfing, por ter feito muitas vezes de guia, mas acho que é possível outro jeito de viver os destinos, da mao de habitantes que, à sua vez, se vem enriquecidos polo contacto com outros pontos de vista.

À sombra do espectáculo turístico, haverá tendas de recordos com trastendas onde tomar uns vinhos, espaços de bairro abondo sujos para que nom se achegue a massa, personagens que darám medo aos de fora. Periferisa enfim nas que transitar dum outro jeito. E parar, e tentar viver.

Mas nom será abondo. Compre gerar, a grande escala, outros relacionamentos entre a maré turística e os habitantes de qualquer lugar. Nom se pode vender a cidade inteira. Há que reclamar espaços para a comunidade, festas próprias que lembrem essa identidade própria fora do que contam as brochuras das oficinas de informaçom. Lugares de convivência onde se geram mitos, líderes e jeitos de convivência. Pactos com os visitantes, carris reservados, espaços libertados.

A maré sobe.

Os chiquitos

Há tempo que som tremendamente consciente da desapariçao do chiqueteo. Cada vez menos gente (sendo fieis à realidade, menos homens) saem tomar uns vinhos. Se bem pola noite ainda é possível atopar lugares onde se reúne a gente e toma umhas canecas, a atividade etílica que há cousa de 20 ou 30 anos se dava a meio dia e ao cair a tarde em qualquer casco histórico galego (e nom só) desapareceu. E também o figérom os bares que o albergavam. Conhecida é a reconversom dos locais do Franco en Compostela, entre outros casos.

Do mesmo jeito que outras mudanças de comportamentos (por exemplo do declínio das praças de abastos), este declíno pode-se relacionar cumha serie de factores.

– Por exemplo, o facto dos chiquitos a meio dia reflectiam umha disponhibilidade temporal dos homens, que saiam do trabalho e ainda tinham oco para passar pola tasca antes de ir jantar à casa e, em muitos casos, voltar a trabalhar pola tarde. Isto implicava tamém o mantimento dum contacto diário com a família e com conhecidos.
– Evidentemente, tanto o trabalho como o ócio e o domicílio estavam localizados relativamente próximos e céntricos, o que nos amosa o troco brutal no jeito no que habitamos os nossos centros urbanos, com cidades-dormitório afastadas e áreas especializadas no ócio (centros comerciais, certas zonas históricas) diferentes daquelas onde se desenvolve a actividade económica.
– As mulheres encarregavam-se do subministro de alimentos, e em muitos casos compatibilizavam isto com o trabalho ou bem nom trabalhavam. Dum jeito ou doutro dedicavam-lhe tempo a ir à compra por diferentes comércios ao longo da manhá e visitavam demoradamente as praças de abastos. E logo faziam o jantar. (Nom digo que isso estivesse bem).

Desde entom vimos mudanças como:
– A externalizaçom da criança em entidades profissionais
– A especializaçom das áreas urbanas (promovida pola especulaçom que afasta a gente dos centros, os próprios interesses económicos das companhias e as políticas que o permitem)
– A difusom dum modelo de trabalho próprio das grandes companhias (mais “eficiente”) ao conjunto das empreas
– A concentraçom do ócio/consumo em determinados tempos e momentos do dia e da semana
– As tentativas de optimizar a produçom com jornadas contínuas.
– A necessária incorporaçom da mulher ao trabalho, que para além da necessária realizaçom pessoal, dá-se também pola necessidade de maiores ingressos para cobrir os gastos derivados de vários destes procesos como a criança, os alojamentos mais caros, os carros necessários para mais depraçamentos diários ou mesmo o ócio vertebrado cada vez mais como consumo.

Dum jeito ou doutro, artelhamos as nossas vidas a partir de modelos optimizados de trabalho e consumo pensados para favorecer as companhias, nom necessariamente os nossos interesses. Centros comerciais, cadeias de restauraçom, cinemas, pacotes vacacionais, Internet, venda a domicílio. Dum jeito ou doutro, a maior parte da oferta comercial nom favorece a socializaçom fora dos círculos mais imediatos de amigos e família.

Deste jeito, com a desapariçom de espaços como o chiqueteo ou os mercados, finam também espaços de socializaçom abertos, onde se dava um contacto mais ou menso frequente com círculos alheios. Vizinhos, conhecidos de conhecidos, pessoas anónimas com as que se desenvolviam conversas casuais ou, com o tempo, habituais. Eliminam-se assim círculos de debate, espaços onde se gera opiniom, onde se escuitam diferentes visões e onde entram em jogo as perspectivas, a capacidade de convencer, o creto que se lhe outorga a interlocutores fisicamente presentes. Compare-se isto com a receiçom passiva dos mídia ou os debates anônimos ou ausentes de Internet.

Cabe interrogar-se pola homogeneidade ou nom destes espaços (na minha memória semelhavam-me bastante interclassistas, mas pode ser umha impressom errada), e mais polo jeito no que se gerava opiniom no seu seio. Nom devemos esqueçer que o anonimato também gera umha relativa maior liberdade e evita até certo ponto a pressom do grupo para obter consenso.

Nom digo que estivesse bem beber tanto, nem que a gente estivesse mais conscienciada de nada. Mas desde logo, algo de medo mete-me. Nom nos estám a faltar espaços deste tipo? Nom estamos a ceder vida de mais a prol do consumo?

(E dos parques infantis melhor nom falo, que me dam terror…)

Armas para mobilizaçom (III)

Fonte: Campogalego.com

Tal e como diferentes estudos tenhem salientado, atopámonos numha sociedade em transiçom na que, em muitos ámbitos, se mantém a desconfiança cara às instituições anónimas e busca-se personalizar as relações com as administrações. Cabe pensar que esse tipo de relações afectam também ás mobilizações sociais e à acçom política, que se mantém a desconfiança de cara a partidos, sindicatos e associações.

Na última semana, a coincidir com as mobilizações gandeiras, comentam-me o feito de que foi a partir dum grupo (reduzido) de Whatsapp que os tratoristas de Lugo de desvinculárom da mobilizaçom sindical e optarom por continuar com a sua acçom local.

De jeito similar a outros movimentos recentes, as redes sociais aparecem como umha ajuda das novas tecnologias a manter sistemas de relacionamento mais tradicional. Fonte a integraçom anónima do cidadám no partido ou na assembleia, mantenhem o acento na gente conhecida, na que se confia e a partir da qual o indivíduo se articula em movimentos colectivos. Permitem manter as estruturas de redes do mundo real e geram com facilidade outras novas no proceso das mobilizações. Algo a termos em conta à hora de pensarmos como implementar políticas públicas e gerar mudanças. Tirar do conhecido, das relações informais, das pessoas que actuam como referentes nalgum ámbito, dos nodos (temáticos, emocionais, espaciais) onde se atopa a gente em este contexto de transiçom.

Sei lá se tem algo que ver com estas nossas peculiaridades, mas semelha que lhe damos um uso especialmente intenso às redes sociais por aqui…

Amor às margens

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Porque é nas margens que para o tempo.
Lá estám os joguetes rotos, lá se reconhecem muros como os que na infáncia compartim com meu pai.
Ali atopo as varandas aquelas às que me aferrei com o passo inseguro quando eram mais altas do que eu.

Gosto das margens polo que tenhem de arqueológico, polo seu jeito de acumular um lixo
que conta histórias.
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SoPa de sobremesa. Quêm é a comunidade? #sopa14

NOTA PRÉVIA: Unicamente aponto ideias que me surgírom a raíz da participaçom no SOPA, ninguém o tome como umha crítica nem muito menos como um documento acabado. Apontamentos apenas.
Trabalhamos com a ideia de conseguirmos umha gestom patrimonial democrática e participada polas comunidades locais.
Consideramos, de jeito geral, que som os habitantes do contorno dum bem/complexo patrimonial, ou aqueles que partilham o seu significado (ou seja, aqueles que dalgum jeito geram identidade a partir do mesmo ou se identificam com ele), os sujeitos legítimos para atuar sobre ele, resignificá-lo e revalorizá-lo.

Se entendemos precisamente a ideia de património como um procomum, quêm decide até onde chega a comunidade? Fora da definiçom sociológica da mesma, onde pomos os limites de quêm tem direito a decidir sobre o património? E como podem fazê-lo?

1- Os que participam.
Tendemos a pensar em que é a toma de decisões assemblear, horizontal, informada e razoada a que legitima o sujeito.
No entanto, nom todo o mundo participa nos nossos projectos, e há diferentes jeitos de participar. Quê acontece com a gente que nom se integra? Com as que nom partilham esse jeito de decidir? Nom participa quem nom quer ou nom participa quem nom sabe/pode? Até que podo é o nosso labor facilitar essa participaçom?

2- Aqueles que participam de jeito “correcto”
Nom está todo património socializado em por sim? A aquiescência, a conformidade, a toleráncia som também jeitos de participar dessa gestom?

Até que ponto existe realmente a toma de decisões horizontal e democrática?, até que ponto nom se desenvolve em comunidades que possuem já estruturas e relações de poder prévia que determinam o jeito no que a gente participa em elas. (Há caciques, gente influínte, pessoas que nom se tenhem em conta, afinidades e ódios).
Ainda mais, a geraçom destas dinámicas pode favorecer a emergência de novas relações de poder (libertadoras ou nom) ou servir como apoio para status quo de desigualdade? (Alcaldes que podem ver afortalada a sua possiçom na comunidade mediante este tipo de actividades? comunidades de montes geridas de jeito caciquil?) quê consideramos umha comunidade informada?

Entom, somos nós, os técnicos, os que pomos esse limite? Desbotamos como ilegitima toda toma de decisom que nom se desenvolva de jeito horizontal? Deslegitimamos as instituições estatais e “democráticas” como agentes sobre o património? Nom limitamos entom o alcance possível dos efeitos? Podemos integrar agentes com diferentes poderes e diferentes jeitos de participar?

Do mesmo jeito, desacreditamos, por pouco democráticos, os jeitos capitalistas de utilizaçom do património? Negamos a sua mercantilizaçom, priorizamos a significaçom na própria comunidade do que a criaçom de ofertas turísticas? Quer dizer, se esse é o interesse da comunidade, devemos inibir-nos? Até onde?

3- Quem obtém identidade do bem/complexo patrimonial?

Nom só a comunidade local se identifica com cada elemento. Pode acontecer que pessoas além do lugar concreto tirem de ali elementos identitários. Seja como consciência dumha questom nacional, por identificaçom cumha época concreta, por gostos estéticos, por simbolismos religiosos, polo que for, há pessoas alheias ao local que dalgum jeito geram a sua identidade arredor do bem (pense-se, por exemplo, em Stonehenge). Há voluntários e trabalhadores que colaboram na iniciativa e que integram nas suas vidas os elementos, os próprios técnicos, investigadores e especialistas geram a sua identidade como tales a partir também da sua relaçom com os bens e as comunidades que os acompanham. E também estám os turistas, os empresários a gente que se interessa desde a distáncia e que, como olhamos cada vez mais, pode mobilizar-se de jeito importante arredor dum bem.
Entom, quêm pode e nom pode decidir ao respeto?

(continuaremos)

 

SoPa de sobremesa. Questões sobre a mobilizaçom patrimonial

(Sem ordem nem organizaçom, como corresponde a um quaderno de apontamento, tentarei ir recolhendo pensamentos e ideias que surgem a raíz da minha particiaçom no SoPa14)

“O mais importante ao falarmos de património e comunidade é a comunidade”, dizia Sabah (penso) nalgum momento do encontro. É claro. Já tenho apontado por aqui o potencial mobilizador do património, para mim mais intuído do que verificado, e o Congresso nom fixo mais que apontoar a ideia. Falamos dum elemento que possue nos nossos dias umha enorme capacidade para gerar identidades, empoderar grupos, activar participações e tudo o que se quiger em esse sentido.

Aparecem-me à volta destas possibilidades diferentes questões que agardo ir debulhando, especialmente em torno ao papel do técnico ou mediador (quêm sinala quê é importante?), dos jeitos em que se artelha a participaçom (quêm decide quê jeito de participaçom é ajeitado? só é aceitável aquele que se desenvolve em teóricos mecanismos assembleares?) e, em geral onde fica a legitimidade para agir e activar o património com fins sociais (onde fica a comunidade? vai para além do local?).

Nom está acaso sempre socializado o património? Nom existe acaso sempre um certo consenso (inestável e contraditório, como todos) já no jeito no que umha comunidade o considera? Outorgar-lhe de jeito tácito a ruínas e lugares que perdérom a sua funçom original outras funções de espaço periferico resulta também um jeito de socializar, de outorgar-lhe um papel no seo da comunidade, já seja para o consumo de drogas de diversos tipos, como espaço segregado para grupos de idade (crianças e adolescentes),  ou lugar para practicar sexo.

Iremos-lhe dando voltas.

Problemas / oportunidades

Os pataqueiros da Límia levam tempo a se queixar dos problemas que supom para a súa actividadae a declaraçom dumha Zona de Proteçom para Aves na zona. A Xunta, a lhes fazer caso, estuda o jeito de lhes minimizar o impacto.
Boa parte das terras de cultivo destes agricultores provenhem a dessecaçom da Lagoa de Antela, considerada no seu dia o maior (ou o segundo maior) humidal do Estado, em competência com o celebérrimo Doñana, uns 42 km quadrados. Os recentes temporais assolagárom umha pequena parte desta antiga extensom, o que de novo foi denunciado polos agricultores como um problema para o seu trabalho.

E paralelo, descobro os projectos para recuperar o chamado Mar de Campos, em Paléncia. E chama-me a atençom a declaraçom dum dos implicados: “Imagine lo que sería tener un Doñana en Palencia. Eso es a lo que aspiramos”.

Aqui nom somos quêm de o imaginar, embora está aí, a flor de terra. A questom é que devemos pensar quê modelo queremos. A produçom agrária e a soberania alimentar é claro que é fundamental. Mas quiçais o modelo de monocultivo estensivo, a base de destruír humidais, nom seja o mais ajeitado. Por nom falarmos das problemática periódica com os preços que sofrem os produtores de pataca polos actuais modelos de distribuiçom. Alguém terá botado as contas? Realmente som mais rendíveis as patacas do que os humidais?