A identidade que vém

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Apenas é mais um síntoma, mas acho que este mapa resume em boa medida umha perspectiva de identidade galega que está a se afiançar nos últimos anos. A gastronomia, o rural, as vacas (que também as há em Astúrias, ou em Suíça p.ex), certas iconas tradicionais e as festas de interesse turístico, mesturadas com algumhas pegadas históricas emergem como riscos definitórios. E a língua fica reduzida a mais um souvenir, a um elemento folclórico mais, um produto simbólico que se exprime unicamente en quatro palavras icónicas. Resultado em grande medida dum olhar alheio, esta récua de ideias está a ser, no entanto, apropriada por umha boa parte da povoaçom.

Ai temos bons exemplos. Umha identidade feita à base de enumerações, sem artelhar entre sim nem exigir coerência, em possitivo, de anúncio.

Para além da interpretaçom dumha certa alienaçom coletiva (que acho nom é muito produtiva), acho que esta perspectiva amosa umha certa madureça da nossa sociedade (de entendermos madureça como assimilaçom à visom occidental e urbana). O peso nacional deixa de ser determinante na configuraçom da identidade individual e passa a se considerar um vetor mais com o qual se definir entre muitos outros. A identidade passa a se jogar dum jeito diverso, no qual compre tomar posse sobre como se sente o país, mas sem que essa questom vaia cumprir um papel fundamental.

Aliás, ao ser ainda a nacional umha identidade conflitiva (de cara á propria pessoa, ao exigir coerências como a da língua ou determinadas escolhas de consumo cultural, como de cara a outros que nom a compartem), acaba se gerando umha proposta “nom conflitiva” de identidade que permite sentir-se galego e estar orgulhosos (ou avergonhados) sem ter que apanhar o “pack completo”. Sem música tradicional, sem vivência direta do rural, sem ler autoras do país, sem falar galego (como amosam alguns dados deste interessante estudo). Como já dizia há tempo, o galeguismo passa a ser um estilo de vida, umha opçom individual se definir como pessoa entre muitas outras, como os gostos musicais, a roupa, os hobbies ou o trabalho. Isto tudo numha sociedade na que os indivíduos buscam, polo geral, identidades nom conflitivas e que tenhem com elas que procurar respostas (perspectivas) ante situaçom geral de despovoamento e extinçom (quiçais tenhem já problemas abondos como trabalhadores precários como para engadir também outras luitas).

Isto está a ter também o seu reflexo na evoluçom da esquerda política no país, e na possiçom que a identidade ocupa nos programas. Ou na “exigência” dumha determinada identidade pola cultura política de partidos concretos.
Mais plural, fluída, menos categoricamente galega. Velaí a identidade que vém.

Rural: terra baldia

(Vaia por diante que, como todo o publicado neste blog, isto é um rascunho feito apenas de impresões e pendente de verificações e contrastes).

Estes dias veu-me à cabeça a ideia de que a desertificaçom do rural transforma estas áreas num terreio baldio. A coindicir com um proceso crescente de urbanizaçom inédito, fica cada vez mais o que nom é cidade como um espaço a organizar em funçom de interesses, sujeitos, pautas eminementemente urbanos. E partamos da base de que a distinçom rural/urbano é totalmente arbitrária e artificial, já que (para além da existência do rururbano) na práctica o mundo hoje é totalmente urbano enquanto tudo (tal e como sinalo em este mesmo parágrafo) está penetrado de lógicas urbanas.

Nem votantes, nem consumidores
Por umha banda, a diminuiçom numérica dos habitantes rurais fai que estes deixam de ser protagonistas da políticas públicas e até nem se olhem como consumidores desde a iniciativa privada (por pura perda de peso numérico, polo suposto encarecemento de lhes achegar serviços ou por pautas de consumo pouco atractivas para grandes empresas).

Mais um actor
Entom, estas pessoam passam a ser apenas mais um actor entre outros a ter em conta à hora de abordar actuações e de legislar sobre o particular. E, no entanto, ganham peso outros usuários do rural: turistas e empresários turísticos, madeireiros, deportistas, caçadores, empresas mineiras ou energéticas (cada vez mais internacionalizadas e de maior tamanho) ou as próprias administrações. E, obviamente, nem todos os usuários tenhem o mesmo peso (e sempre ganha a banca).

Nom há estruturas
De jeito paralelo, dá-se um desartelhamento de estruturas (relacionado com um cámbio social acelerado) o que dá numha maior dificudade de artelhar respostas coletivas. A ausência de plataformas sentidas como próprias pola povoaçom rural fai que este ámbito seja campo aberto para iniciativas de exploraçom: eólicos, minas, barragens (que, ao igual que o feísmo, desenvolvem-se no baleiro).

Assim, tal e como já temos comentado, semelha que som necessários apoios externos (urbanos?) para desenvolver respostas a essas ameaças também urbanas. Mas nem sempre se consegue conectar com a própria povoaçom afectada, falar nos seus termos ou empregar a sua lógica para artelhar umha defesa.

Diversificaçom interna
Em relaçom com isto, o próprio conceito de habitante do rural sofre intensas transformações que fam que a teórica unidade e uniformidade salte definitivamente polos ares. Pessoas dedicadas a pequenas explorações agrárias a tempo completo, grandes gandeiros, residentes com actividade unicamente urbana, nom-residentes que, no entanto, mantenhem actividades parciais vencelhadas à terra e todo tipo de simbioses ocupacionais entre seitores primário-secundário e terciário mesturam-se com diferenças importantes (e suponho que crescentes) enquanto aos níveis de renda. Dá-se, polo tanto, umha multiplicaçom de interesses contrapostos dentro das pessoas que habitam o rural, a sumar á diversidade daqueles que som “usuários” da zona.

O exemplo da caça
Nos últimos anos, como exemplo destacado, observa-se um peso crescente do lobby a prol da caça nas legislações que estám a jurdir sobre esteste ámbito. Tanto a nível galego como no Estado, detecta-se umha tendência a legislar a prol da actividade cinegética em detrimento de quaisquer outros empregos do rural. Diminuiçom das áreas e das medidas de seguridade, ampliaçom da temporada e das espécies disponhíveis, direito preferente do uso do terreio (fronte a paseantes e habitantes) e mesmo umha menor responsabilidade por accidentes com animais fugidos dos cotos.

Observa-se entom que os caçadores (umha grande parte dos mesmos usuários mas nom residentes no rural) conseguem que se legisle a prol dos seus próprios interesses fronte aos de quaisquer outros usuários do rural (agás, se acaso, as empresas que actuam nesta área, acho que nom se vem muito afectadas pola caça e à inversa). Encol da ideia da actividade cinegética como “deporte popular”, embora muitos dos caçadores som asimesmo habitantes do rural, dá-me a impresom de que a actividade está nos últimos anos a incrementar os custos. Da pessoa que saia com o cam e a escopeta passamos, na actualidade, a quadrilhas organizadas nas que comprem carros todo-terreio, rádios, material de seguridade e, como nom, os gastos sociais que aparelha em copas, puros ou prostituiçom. Acho entom que podemos desmontar a ideia da caça como umha actividade democrática ou popular, e ao meu ver, pensarmos nos caçadores como mais umha minoria que “emprega” o monte.

Do mesmo jeito que caminhantes, turistas, recoletores de cogomelos, pescadores ou, por desgraça, os próprios habitantes do rural, que semelham cada vez mais presos no seu próprio contorno de interesses alheios.

Transforma-se entom o rural numha área para a exploraçom empresarial ao tempo que adquire o carácter de cenário e paisagem para actividades turísticas e cinegéticas. Legisla-se sobre a área a miúdo sem ter em conta os interesses dos afectados, que se atopam atrapados em legislações a miúdo pensadas para favorecer a outros agentes e que nom contemplam contraprestações (ou as que contemplam resultam insuficientes) para eles.

Vejam-se as problemáticas com os danos polos javalis e os lobos (e as diferentes perceições duns e outros como ameaça segundo se fale com agricultores ou com gandeiros), com compensações que chegam tarde e mal. Os medos aos parques naturais e as suas limitações. As vantagens para o uso de eólicos e os monocultivos arbóreos. As legislações sobre património e as normativas urbanísticas.

E isto tudo sobre umha povoaçom que, numha grande parte dos casos, carece de ferramentas para compreender a legislaçom que se lhe aplica e que a miúdo é enganada, manipulada (ao tempo que também engana e manipula) por agentes alheios.

E logo ainda nos perguntamos por quê arde o monte.