Galician Music Show. Raíces Galegas

Novacaixagalicia Obra Social – Evento: Galician Music Show. Raíces Galegas en Santiago de Compostela.

Gana dá de i-lo ver.”A recreación en escena da realidade máis auténtica do noso país. Un típico día de festa que se podería vivir en calquera pobo”.

Nom digo que esteja mal, mas de certo há de se poder aprender algo sobre quê e como se codifica no espectáculo. E já se aprende também do jeito que se vende, claramente dirigido ao turista.

Como complemento perfeito, estoutra proposta: Ópera de Donizetti com fatos tradicionais galegos do século XVIII.

Recriaçom em Vigo

Fora da espectacularizaçom (maquilhagem, pirotécnia e efeitos especiais vários) nada novo no espectáculo de castrejos e romanos que se deu ontem em Vigo. A identificaçom do nosso passado com os elementos da fantasia cinematográfica e literária anglosaxona e mais com a olhada espanhola sobre Galiza segue à ordem do dia.

ENGADIDO: Polo visto o espectáculo foi basicamente o que Troula Animación oferta desde o seu web co nome “Errantes” (secçom Itinerantes) e em cuja descriçom nom há referência algumha a castrejos, mas a criaturas fantásticas. Engadindo-lhe uns romanos e fazendo umha mínima adaptaçom, temos já o espectáculo de “recriaçom” de Vigo. E vaia com todo o meu respeito para o trabalho dos artistas.

Circuncisom e lei

Surpreende-me a nova dos 30 mortos recentes por circuncisões mau feitas em ritos de passagem.

Botched Circumcisions Kill 30 South African Boys

A seguir as minhas teimas, no primeiro que penso é numha precarizaçom da prática derivada da mudança social. Traslado às cidades, probreza, precariedade, falha na transmissom da tradiçom, ausência de remédios naturais ou dumha massa crítica que controle o processo. Um proceso até certo ponto (e só até certo ponto) paralelo a certos recrudescimentos das ablações na emigraçom ou em situações de mudança.

Resulta-me rechamante, também, a atitude governamental: nom se considera a circuncisom em sim um problema, mas as circunstáncias nas que se desenvolve. Em nengum momento se questiona a sua legitimidade e vê-se como parte da identidade nacional, no marco dum etnonacionalismo cada vez mais marcado (e que lhe permite, por exemplo, manter ao atual presidente um matrimônio polígamo). O qual é completamente oposto à possiçom alemá sobre a questom, na qual se pode pensar até que ponto nom pesa o olhar o rito como umha prática alheia.

De jeito semelhante ao de Turquia e os matrimônios concertados, ou de Espanha e as touradas, as relações entre o poder, as leis e as tradições revelam de jeito especial as políticas de identidade dos estados.

Action-figure pulpeira e a artesania como autenticidade

Semelha piada, mas quase existe. Embora sem articular, o web Tipigal (Produtos típicos galegos) permite adquirir figuras sobre ofícios “tradicionais”. A saber: pulpeira, ferreiro, aguardenteiro, carpinteiro, taberneiro, panadeira e mesmo albanel! Ademais, também estám disponhíveis reproduções do carro e da lareira entre outros elementos, em todos os casos (agás no carro) cum fundo de pedra que atua como cenário do ofício e lhe outorga o caracter tradicional cum contexto de granito.

Destaca no entanto, o albanel e o seu trabalho a tijolo à vista… umha reivindicaçom do feísmo e da autoconstruçom como elemento diferencial? Consciente ou inconsciente?

De atendermos a este web no que se refere a quais som os produtos típicos (a denominaçom já amosa a perspetiva de exportaçom do projeto) olhamos comos a denominações de origem se imponhem como garantes de identidade alimentária, que o porco celta (até há poucos anos perdido) colhe força como um símbolo de autenticidade ou, curiosamente, que as algas se integram rapidamente na nossa identidade típica. Chega a se vender como típico e autêntico qualquer produto feito na Galiza (genebra ou setas shiitake incluídas) e com tintes de ecológico ou artesanal.
É claro que num projeto deste tipo ficam fora produtos frescos de difícil distribuiçom, polo que pontos fortes da nossa gastronomia para turistas como o marisco estám só na forma de conservas.

Nesse sentido, a nossa autenticidade aparece neste web em boa medida como resultado um processo de vontade, sustenta-se numha atitude e num modelo de negócio slow tanto ou mais do que em elementos diferenciadores intrínsecos. O produto elaborado, já nom só os produtos próprios é o que nos diferença e se incorpora como marca diferenciadora. O pam de Cea, mesmo sem contar com cultivos próprios de trigo, fai-se tam galego como o emprego do grelo na culinária. A genebra e as algas elaboradas na Galiza integram-se ao mesmo nível do que as variedades autóctones de vinho.

Com isto, tudo se integra afinal no próprio conceito de produto, de jeito a identidade fica como um elemento de originalidade que achega valor num mercado.

Mas essa reelaboraçom identitária mercantil acaba gerando um feddback sobre a própria sociedade, polo que acabamos definindo em boa medida quêm somos a partir do que nos mercam, do que é útil para esse mercado.
E o problema pode ser que afinal nom decidimos de jeito consciente quêm queremos ser (e a partir de ai olhamos como nos fazer possíveis).

A questom é que nos deixamos marcar por essas olhadas e acabamos sendo mais mais como nos definem do que como nos definimos.

Novos Sam Joaos

 

 

 

Terras prepara ya la noche más ‘meiga’.

A festa do Sam Joao vive ainda um bocado à parte das instituições públicas ou das entidades culturais habituais. Tal e como sinala Xurxo Insua neste artigo sobre O Entrudo, enquanto festa viva muta, busca novas configurações, adapta-se a cánons e olhadas por vezes aparentemente alheias. Assim, buscam-se elementos locais diferenciadores, como esse castelo que queimam em Arçua, ou a meiga de Conjo.

Na Corunha, pola sua banda, apropriam-se da celebraçom em base às dimensões que acada a festa (graças ao apoio municipal e ao idóneo de dispor dumha área de bom tamanho onde fazer os lumes mesmo ao carom da cidade) , no canto de buscar elementos diferenciadores ou incidir na ancestralidade da mesma.

Vive a festa enfim, bastarda e a se debater entre as interpretações identitárias locais e nacionais, as visões refolclorizadas e as invenções para apanhar turistas. E seguirá a mudar enquanto nom proíbam as fogueiras por motivos de segurança…

 

 

 

O poder de territorializar

Nom é apenas cousa de reivindicações, mas também de humor, de drama, de narrativa: Os discursos ganham força quando se territorializam.

As mesmas histórias, as piadas de sempre ganham mais poder e mais sentido quando aplicadas a contornos e personagens próximos e conhecidos, o jogo é velho e aplica-se desde sempre.

Do mesmo jeito, os berros som mais efetivos quando fam referência ao contíguo, quando se fai a mofa do famoso achegado, quando se retrata numha obra qualquer (fotografia, filme, BD) um elemento que permite ao usuário sinalar: “Eu estivem ai”.

Com o simples facto de territorializar deste jeito o discurso, integrando elementos reconhecíveis e vividos polo receitor, rachamos a fronteira entre o real e o contado, abrimos a janela à maravilha de nos olhar pessoas e protagonistas da história que estamos a conhecer por compartirmos espaços ou referentes.
Sabemo-nos possuidores do conhecimento segredo que nos permite decodificar a mensagem para além do que outros.

Reflexionemos entom sobre o poder dos mapas, da construçom de propiciar discursos e de reflexões desde o local, de chamar a cada umha das pessoas a partir da sua referência mais cotiá, tingida sempre de emoçom.

Festas para fora que nos fam

Fiestas populares made in Galicia – ABC.es.

A listagem revela que a prática totalidade som celebrações recentes, fora o Nazareno da Pobra e da Rapa das Bestas (também recriadas e adaptadas) orientadas desde o seu nascimento a receber visitantes-consumidores. Isto nom quita que haja casos nos que criem comunidade, e é de destacar o trabalho para a Festa da Istoria que desenvolvem os vizinhos todo o ano ou, de jeito mais recente as iniciativas de teatro afeiçoado que se abeiram ao Desembarco de Catoira.

No entanto, a listagem amosa como as festas melhor consideradas em Madrid e, de jeito subsidiário entre muitos de nós mesmos, apresentadas como “populares” e como um “tipo de celebraciones culturales que se resiste a morir con el paso del tiempo” som resultado de estratégias promocionais de diferentes indivíduos ou instituições. Concelhos e seitores profissionais (Arde Lucus, Festa do Marisco), associações (Romaria Vikinga) ou diferentes entidades (nom esqueçamos a Fraga, nas suas diferentes encarnações como ministro ou presidente da Xunta, e o seu apoio decisivo a celebrações como a festa do Albarinho) promovérom iniciativas orientadas primeiramente cara aos de fora.

É de destacar como na promoçom destes eventos se oculta em muitos casos a sua origem relativamente recente e apresentam-se como eventos totalmente tradicionais e integrados na cultura do país. Do mesmo jeito, naturalizam-se como tradicionais, eternas, imutáveis, sem data de nascimento outras celebrações como o Sam Blas, Santa Mínia (dentro das que possuem um carácter mais comunitário).

De jeito paralelo adaptam-se de cara ao turismo romarias e formas mais ou menos tradicionais de celebraçom, engadindo elementos cénicos, a consciência de espetadores e visitantes foráneos aos atos. Dentro da cenificaçom, procura-se depurar elementos nom “tradicionais”, adatar-se à considerada “norma” dentro do tradicional. E para isto remexe-se no passado e fam-se recriações já nom doutros passados históricos, mas de momentos relativamente recentes para os apresentar como autênticos e mais vencelhados à esência.
Exemplos em este sentido temo-los, por exemplo na Romaria Raigame de Vila Nova dos Infantes, Son d’Aldea, a Feira de Cuspedriños ou a Romaria 1900 de Arteixo.

No entanto, há outras festas. Nas que entrou e ficou a eletricidade, a música latina, os joguetes de plástico, os cuba-livres de genebra, as pelejas. Lugares aos que os turistas nom estám convidados, nom há queimadas e onde ninguém vai atuar para eles nem estará o palco de concreto camuflado para semelhar outra cousa. E som essas, por paradoxal que semelhe, as que som nossas e mais para nós.
Embora poidam ser as mais cenificadas as que contribuem, por retroalimentaçom dos mídia, a constituír os tópicos com os que fazemos a nossa identidade, mesmo enquanto estamos na barra da comissom de festas a ouvir “A cabritinha”.

Tropicalismo galego

Tropicália – Wikipédia, a enciclopédia livre.

“Parte das duas propostas era precisamente definir a cultura nacional como algo heterogêneo e repleto de diversidade, cuja identidade é marcada por uma não identidade mas ainda assim bastante rica”

Estamos a perder medo a nom termos guia. Nom precisamos canon (ou acaso estamos a criar um novo, por pura rebeldia?)

Reivindicamos bandas de música, humoristas de cassete, bandas desenhadas, titiriteiros. Reclamamos o esquecido na cultura oficial e nas recriações de cultura popular. Pomos em dúvida a pureza, a identidade única da cultura popular.

Tropicalizamo-nos?

Os donos e as glaciações dos ritos

Europe’s Wild Men – Photo Gallery.

Olho as fotografias desses peliqueiros de por ai fora. E penso até quê ponto se mantenhem imutáveis, ao igual do que os que há na Galiza. Pergunto-me se o serem mantidos na sua condiçom de tradiçom, de patrimônio imaterial, os congelou num momento concreto.

Nom é para se enganar. É claro que os ritos e os seus elementos evoluem aos poucos. Nom mudam sem mais, nom haviam de se transformar dum ano para outro. Mas é certo que quando apanhamos algumha cousa e decidimos que há que a conservar, acabamos por a deixar congelada, tal e como estava. E já nom é exatamente o que era, já nom tem a mesma funçom: Agora é também umha propriedade da comunidade correspondente, um atrativo turístico, um sinal de identidade num mundo global, um símbolo que há que manter.

Antes de serem “material recuperado”, as tradições todas, e os elementos históricos, mudavam, evoluíam, adaptavam-se. Até nom há tanto. Podemos olhar as damas e galáns de Cobres, com os seus espelhos, abalórios e fitas das tendas chinesas. Sabemos dos volantes, dos próprios peliqueiros, das pantalhas, que forom mudando o seu feitio já desde que existe documentaçom gráfica. E nom aconteceu nada, continuamos a os considerar puros e tradicionais.
Mas agora. Quêm pode tocar umha destas máscaras? Quêm se há atrever a pôr um brinco no nariz da sua carauta de bidueiro? A documentaçom fixa os ritos, a Administraçom cria elites que velam pola sua pureza. (E velaí o interessante do fenômeno do merdeiro e da sua flexibilidade manifesta, as suas máscaras customizáveis).

E quiçais o problema seja o termos perdido o sentido desses fatos, o significado dos seus movimentos e das festas. Significados sempre complexos, meio transmitidos e meio intuídos, recriados e forjados. Entom dá medo também (embora sempre deu medo, e é parte do seu ser) meter-lhe mao ao rito herdado. Nom nos atrevemos a o tocar. Porque som poucos quem o transmite, porque já nom estamos certos da sua pureza, e nem sequer de se somos os legítimos donos desses bens. Há professores, jornalistas, administrações que pedem e dam subsídios, turistas que clamam porque mantenhamos esses legados. E tiram a foto.

E se nom, veriamos peliqueiros com máscaras de Freddy Krueger? Se a ideia era dar medo, por quê nom chegamos a essa mestura? Ou integrar a de Scream? Mudaria muito se no lugar de farrapada houbesse umha luita com balas de pintura?

Quêm fica afinal dono desses elementos? Nem sequer os seus executantes? Nem sequer quem no-los transmitiu?