Recriaçom em Vigo

Fora da espectacularizaçom (maquilhagem, pirotécnia e efeitos especiais vários) nada novo no espectáculo de castrejos e romanos que se deu ontem em Vigo. A identificaçom do nosso passado com os elementos da fantasia cinematográfica e literária anglosaxona e mais com a olhada espanhola sobre Galiza segue à ordem do dia.

ENGADIDO: Polo visto o espectáculo foi basicamente o que Troula Animación oferta desde o seu web co nome “Errantes” (secçom Itinerantes) e em cuja descriçom nom há referência algumha a castrejos, mas a criaturas fantásticas. Engadindo-lhe uns romanos e fazendo umha mínima adaptaçom, temos já o espectáculo de “recriaçom” de Vigo. E vaia com todo o meu respeito para o trabalho dos artistas.

Circuncisom e lei

Surpreende-me a nova dos 30 mortos recentes por circuncisões mau feitas em ritos de passagem.

Botched Circumcisions Kill 30 South African Boys

A seguir as minhas teimas, no primeiro que penso é numha precarizaçom da prática derivada da mudança social. Traslado às cidades, probreza, precariedade, falha na transmissom da tradiçom, ausência de remédios naturais ou dumha massa crítica que controle o processo. Um proceso até certo ponto (e só até certo ponto) paralelo a certos recrudescimentos das ablações na emigraçom ou em situações de mudança.

Resulta-me rechamante, também, a atitude governamental: nom se considera a circuncisom em sim um problema, mas as circunstáncias nas que se desenvolve. Em nengum momento se questiona a sua legitimidade e vê-se como parte da identidade nacional, no marco dum etnonacionalismo cada vez mais marcado (e que lhe permite, por exemplo, manter ao atual presidente um matrimônio polígamo). O qual é completamente oposto à possiçom alemá sobre a questom, na qual se pode pensar até que ponto nom pesa o olhar o rito como umha prática alheia.

De jeito semelhante ao de Turquia e os matrimônios concertados, ou de Espanha e as touradas, as relações entre o poder, as leis e as tradições revelam de jeito especial as políticas de identidade dos estados.

Action-figure pulpeira e a artesania como autenticidade

Semelha piada, mas quase existe. Embora sem articular, o web Tipigal (Produtos típicos galegos) permite adquirir figuras sobre ofícios “tradicionais”. A saber: pulpeira, ferreiro, aguardenteiro, carpinteiro, taberneiro, panadeira e mesmo albanel! Ademais, também estám disponhíveis reproduções do carro e da lareira entre outros elementos, em todos os casos (agás no carro) cum fundo de pedra que atua como cenário do ofício e lhe outorga o caracter tradicional cum contexto de granito.

Destaca no entanto, o albanel e o seu trabalho a tijolo à vista… umha reivindicaçom do feísmo e da autoconstruçom como elemento diferencial? Consciente ou inconsciente?

De atendermos a este web no que se refere a quais som os produtos típicos (a denominaçom já amosa a perspetiva de exportaçom do projeto) olhamos comos a denominações de origem se imponhem como garantes de identidade alimentária, que o porco celta (até há poucos anos perdido) colhe força como um símbolo de autenticidade ou, curiosamente, que as algas se integram rapidamente na nossa identidade típica. Chega a se vender como típico e autêntico qualquer produto feito na Galiza (genebra ou setas shiitake incluídas) e com tintes de ecológico ou artesanal.
É claro que num projeto deste tipo ficam fora produtos frescos de difícil distribuiçom, polo que pontos fortes da nossa gastronomia para turistas como o marisco estám só na forma de conservas.

Nesse sentido, a nossa autenticidade aparece neste web em boa medida como resultado um processo de vontade, sustenta-se numha atitude e num modelo de negócio slow tanto ou mais do que em elementos diferenciadores intrínsecos. O produto elaborado, já nom só os produtos próprios é o que nos diferença e se incorpora como marca diferenciadora. O pam de Cea, mesmo sem contar com cultivos próprios de trigo, fai-se tam galego como o emprego do grelo na culinária. A genebra e as algas elaboradas na Galiza integram-se ao mesmo nível do que as variedades autóctones de vinho.

Com isto, tudo se integra afinal no próprio conceito de produto, de jeito a identidade fica como um elemento de originalidade que achega valor num mercado.

Mas essa reelaboraçom identitária mercantil acaba gerando um feddback sobre a própria sociedade, polo que acabamos definindo em boa medida quêm somos a partir do que nos mercam, do que é útil para esse mercado.
E o problema pode ser que afinal nom decidimos de jeito consciente quêm queremos ser (e a partir de ai olhamos como nos fazer possíveis).

A questom é que nos deixamos marcar por essas olhadas e acabamos sendo mais mais como nos definem do que como nos definimos.

Novos Sam Joaos

 

 

 

Terras prepara ya la noche más ‘meiga’.

A festa do Sam Joao vive ainda um bocado à parte das instituições públicas ou das entidades culturais habituais. Tal e como sinala Xurxo Insua neste artigo sobre O Entrudo, enquanto festa viva muta, busca novas configurações, adapta-se a cánons e olhadas por vezes aparentemente alheias. Assim, buscam-se elementos locais diferenciadores, como esse castelo que queimam em Arçua, ou a meiga de Conjo.

Na Corunha, pola sua banda, apropriam-se da celebraçom em base às dimensões que acada a festa (graças ao apoio municipal e ao idóneo de dispor dumha área de bom tamanho onde fazer os lumes mesmo ao carom da cidade) , no canto de buscar elementos diferenciadores ou incidir na ancestralidade da mesma.

Vive a festa enfim, bastarda e a se debater entre as interpretações identitárias locais e nacionais, as visões refolclorizadas e as invenções para apanhar turistas. E seguirá a mudar enquanto nom proíbam as fogueiras por motivos de segurança…

 

 

 

O poder de territorializar

Nom é apenas cousa de reivindicações, mas também de humor, de drama, de narrativa: Os discursos ganham força quando se territorializam.

As mesmas histórias, as piadas de sempre ganham mais poder e mais sentido quando aplicadas a contornos e personagens próximos e conhecidos, o jogo é velho e aplica-se desde sempre.

Do mesmo jeito, os berros som mais efetivos quando fam referência ao contíguo, quando se fai a mofa do famoso achegado, quando se retrata numha obra qualquer (fotografia, filme, BD) um elemento que permite ao usuário sinalar: “Eu estivem ai”.

Com o simples facto de territorializar deste jeito o discurso, integrando elementos reconhecíveis e vividos polo receitor, rachamos a fronteira entre o real e o contado, abrimos a janela à maravilha de nos olhar pessoas e protagonistas da história que estamos a conhecer por compartirmos espaços ou referentes.
Sabemo-nos possuidores do conhecimento segredo que nos permite decodificar a mensagem para além do que outros.

Reflexionemos entom sobre o poder dos mapas, da construçom de propiciar discursos e de reflexões desde o local, de chamar a cada umha das pessoas a partir da sua referência mais cotiá, tingida sempre de emoçom.

Festas para fora que nos fam

Fiestas populares made in Galicia – ABC.es.

A listagem revela que a prática totalidade som celebrações recentes, fora o Nazareno da Pobra e da Rapa das Bestas (também recriadas e adaptadas) orientadas desde o seu nascimento a receber visitantes-consumidores. Isto nom quita que haja casos nos que criem comunidade, e é de destacar o trabalho para a Festa da Istoria que desenvolvem os vizinhos todo o ano ou, de jeito mais recente as iniciativas de teatro afeiçoado que se abeiram ao Desembarco de Catoira.

No entanto, a listagem amosa como as festas melhor consideradas em Madrid e, de jeito subsidiário entre muitos de nós mesmos, apresentadas como “populares” e como um “tipo de celebraciones culturales que se resiste a morir con el paso del tiempo” som resultado de estratégias promocionais de diferentes indivíduos ou instituições. Concelhos e seitores profissionais (Arde Lucus, Festa do Marisco), associações (Romaria Vikinga) ou diferentes entidades (nom esqueçamos a Fraga, nas suas diferentes encarnações como ministro ou presidente da Xunta, e o seu apoio decisivo a celebrações como a festa do Albarinho) promovérom iniciativas orientadas primeiramente cara aos de fora.

É de destacar como na promoçom destes eventos se oculta em muitos casos a sua origem relativamente recente e apresentam-se como eventos totalmente tradicionais e integrados na cultura do país. Do mesmo jeito, naturalizam-se como tradicionais, eternas, imutáveis, sem data de nascimento outras celebrações como o Sam Blas, Santa Mínia (dentro das que possuem um carácter mais comunitário).

De jeito paralelo adaptam-se de cara ao turismo romarias e formas mais ou menos tradicionais de celebraçom, engadindo elementos cénicos, a consciência de espetadores e visitantes foráneos aos atos. Dentro da cenificaçom, procura-se depurar elementos nom “tradicionais”, adatar-se à considerada “norma” dentro do tradicional. E para isto remexe-se no passado e fam-se recriações já nom doutros passados históricos, mas de momentos relativamente recentes para os apresentar como autênticos e mais vencelhados à esência.
Exemplos em este sentido temo-los, por exemplo na Romaria Raigame de Vila Nova dos Infantes, Son d’Aldea, a Feira de Cuspedriños ou a Romaria 1900 de Arteixo.

No entanto, há outras festas. Nas que entrou e ficou a eletricidade, a música latina, os joguetes de plástico, os cuba-livres de genebra, as pelejas. Lugares aos que os turistas nom estám convidados, nom há queimadas e onde ninguém vai atuar para eles nem estará o palco de concreto camuflado para semelhar outra cousa. E som essas, por paradoxal que semelhe, as que som nossas e mais para nós.
Embora poidam ser as mais cenificadas as que contribuem, por retroalimentaçom dos mídia, a constituír os tópicos com os que fazemos a nossa identidade, mesmo enquanto estamos na barra da comissom de festas a ouvir “A cabritinha”.

Tropicalismo galego

Tropicália – Wikipédia, a enciclopédia livre.

“Parte das duas propostas era precisamente definir a cultura nacional como algo heterogêneo e repleto de diversidade, cuja identidade é marcada por uma não identidade mas ainda assim bastante rica”

Estamos a perder medo a nom termos guia. Nom precisamos canon (ou acaso estamos a criar um novo, por pura rebeldia?)

Reivindicamos bandas de música, humoristas de cassete, bandas desenhadas, titiriteiros. Reclamamos o esquecido na cultura oficial e nas recriações de cultura popular. Pomos em dúvida a pureza, a identidade única da cultura popular.

Tropicalizamo-nos?

Os donos e as glaciações dos ritos

Europe’s Wild Men – Photo Gallery.

Olho as fotografias desses peliqueiros de por ai fora. E penso até quê ponto se mantenhem imutáveis, ao igual do que os que há na Galiza. Pergunto-me se o serem mantidos na sua condiçom de tradiçom, de patrimônio imaterial, os congelou num momento concreto.

Nom é para se enganar. É claro que os ritos e os seus elementos evoluem aos poucos. Nom mudam sem mais, nom haviam de se transformar dum ano para outro. Mas é certo que quando apanhamos algumha cousa e decidimos que há que a conservar, acabamos por a deixar congelada, tal e como estava. E já nom é exatamente o que era, já nom tem a mesma funçom: Agora é também umha propriedade da comunidade correspondente, um atrativo turístico, um sinal de identidade num mundo global, um símbolo que há que manter.

Antes de serem “material recuperado”, as tradições todas, e os elementos históricos, mudavam, evoluíam, adaptavam-se. Até nom há tanto. Podemos olhar as damas e galáns de Cobres, com os seus espelhos, abalórios e fitas das tendas chinesas. Sabemos dos volantes, dos próprios peliqueiros, das pantalhas, que forom mudando o seu feitio já desde que existe documentaçom gráfica. E nom aconteceu nada, continuamos a os considerar puros e tradicionais.
Mas agora. Quêm pode tocar umha destas máscaras? Quêm se há atrever a pôr um brinco no nariz da sua carauta de bidueiro? A documentaçom fixa os ritos, a Administraçom cria elites que velam pola sua pureza. (E velaí o interessante do fenômeno do merdeiro e da sua flexibilidade manifesta, as suas máscaras customizáveis).

E quiçais o problema seja o termos perdido o sentido desses fatos, o significado dos seus movimentos e das festas. Significados sempre complexos, meio transmitidos e meio intuídos, recriados e forjados. Entom dá medo também (embora sempre deu medo, e é parte do seu ser) meter-lhe mao ao rito herdado. Nom nos atrevemos a o tocar. Porque som poucos quem o transmite, porque já nom estamos certos da sua pureza, e nem sequer de se somos os legítimos donos desses bens. Há professores, jornalistas, administrações que pedem e dam subsídios, turistas que clamam porque mantenhamos esses legados. E tiram a foto.

E se nom, veriamos peliqueiros com máscaras de Freddy Krueger? Se a ideia era dar medo, por quê nom chegamos a essa mestura? Ou integrar a de Scream? Mudaria muito se no lugar de farrapada houbesse umha luita com balas de pintura?

Quêm fica afinal dono desses elementos? Nem sequer os seus executantes? Nem sequer quem no-los transmitiu?

Recuperar é perder doutro jeito

Quando fazemos um centro de interpretaçom dalgum elemento patrimonial, tradiçom, espaço é porque o mesmo já nom existe como tal.

Esse polbo reivindicado no desenho nom é o mesmo que comiam os nossos avós, nem aquele era o que viaxava de Marim ao Carvalhinho, nem o que se conservada mediante secado.

O trabalharmos de jeito consciente, como elementos identitários determinados riscos da nossa cultura, nom deixa de ser umha transformaçom dos mesmos. Pola mesma, a perda do sentido original é inevitável.
O jeito no que se fiava o linho, as formas da olaria, os adornos do carro, os jogos, nunca se desenvolvérom com a intençom de se erguer em símbolos dumha cultura que desaparece. Conformavam inconscientemente, é certo, o jeito de estar no mundo dum (de vários) coletivos.
Mas agora fam-se símbolos conscientes.. Para além da tarefa em sim, constituímo-los elementos de defesa fronte à desapariçom do conjunto de elementos identitários, selecionamos quais som importantes e quais nom, quais há que salvar com urgência e quais nos representam menos.
Fazemo-los importantes, considerámos umha eleiçom e umha diferença processos que no seu dia eram “o jeito no que se fai”, inseridos num universo que nom concibia alternativas.
(E poida que aos poucos medre o rango de elementos que consideramos dignos de reinterpretaçom).

Olhamos com umha perspetiva diferente, recuperamos transformando, e perdemos sempre dalgum jeito.
Como a vida mesma.