Os donos e as glaciações dos ritos

Europe’s Wild Men – Photo Gallery.

Olho as fotografias desses peliqueiros de por ai fora. E penso até quê ponto se mantenhem imutáveis, ao igual do que os que há na Galiza. Pergunto-me se o serem mantidos na sua condiçom de tradiçom, de patrimônio imaterial, os congelou num momento concreto.

Nom é para se enganar. É claro que os ritos e os seus elementos evoluem aos poucos. Nom mudam sem mais, nom haviam de se transformar dum ano para outro. Mas é certo que quando apanhamos algumha cousa e decidimos que há que a conservar, acabamos por a deixar congelada, tal e como estava. E já nom é exatamente o que era, já nom tem a mesma funçom: Agora é também umha propriedade da comunidade correspondente, um atrativo turístico, um sinal de identidade num mundo global, um símbolo que há que manter.

Antes de serem “material recuperado”, as tradições todas, e os elementos históricos, mudavam, evoluíam, adaptavam-se. Até nom há tanto. Podemos olhar as damas e galáns de Cobres, com os seus espelhos, abalórios e fitas das tendas chinesas. Sabemos dos volantes, dos próprios peliqueiros, das pantalhas, que forom mudando o seu feitio já desde que existe documentaçom gráfica. E nom aconteceu nada, continuamos a os considerar puros e tradicionais.
Mas agora. Quêm pode tocar umha destas máscaras? Quêm se há atrever a pôr um brinco no nariz da sua carauta de bidueiro? A documentaçom fixa os ritos, a Administraçom cria elites que velam pola sua pureza. (E velaí o interessante do fenômeno do merdeiro e da sua flexibilidade manifesta, as suas máscaras customizáveis).

E quiçais o problema seja o termos perdido o sentido desses fatos, o significado dos seus movimentos e das festas. Significados sempre complexos, meio transmitidos e meio intuídos, recriados e forjados. Entom dá medo também (embora sempre deu medo, e é parte do seu ser) meter-lhe mao ao rito herdado. Nom nos atrevemos a o tocar. Porque som poucos quem o transmite, porque já nom estamos certos da sua pureza, e nem sequer de se somos os legítimos donos desses bens. Há professores, jornalistas, administrações que pedem e dam subsídios, turistas que clamam porque mantenhamos esses legados. E tiram a foto.

E se nom, veriamos peliqueiros com máscaras de Freddy Krueger? Se a ideia era dar medo, por quê nom chegamos a essa mestura? Ou integrar a de Scream? Mudaria muito se no lugar de farrapada houbesse umha luita com balas de pintura?

Quêm fica afinal dono desses elementos? Nem sequer os seus executantes? Nem sequer quem no-los transmitiu?

O progresso no céu

Gosto da imagem. Umha paisagem que poderia existir há uns séculos no nosso país. No entanto, o céu delata a atualidade. O progresso está nos nosso céus. Os ronseis dos aviões fam parte da nossa paisagem cotiá. De jeito periódico, percorrem os mesmos trilhos e, em deixando-lhes as nuvens, pintam-nos o azul, a lembrar onde é que estamos.

Quêm transmite a tradiçom?

A pensar no jeito no que se nos dá a conhecer a cultura tradicional galega, todo o trabalho de recuperaçom que se fai e se tem feito, pergunto-me quêm é essa gente que nos achega o conhecimento.

Na aldeia, a gente “normal” desconfia de estranhos. A gente “normal” nom quer saír em cámara. Na sociedade tradicional ensina-se com o exemplo, em convivências prolongadas, nom ante interrogatórios gravados nem em conferências. O seu saber nom é facilmente verbalizável, nunca foi transmitido desse jeito.

Entom, quanto do que recuperamos, do que lembramos, do que cremos saber da nossa sociedade tradicional, chegou das maos da gente menos normal?

Dos frikis da aldeia. Dos que estiveram fora e já criaram algumha precária síntese que lhes permitiu exprimir-se para serem entendidos pola modernidade. Dos náufragos que gostam da companhia e da atençom de estranhos que venhem perguntar.

“Conhecimento há, o que é difícil é atopar gente que queira transmiti-lo”, diziam-me há bem pouco… O mesmo nem som os que mais sabem,  mas os que melhor manexam os códigos modernos os que estám a nos achegar o conhecimento para construírmos a nossa identidade.

Por quê nos falam?

Até onde devemos pôr em questom as fontes orais? E ainda mais, quê papel lhes outorgamos? Som apenas receptáculos que respondem as nossas questões sobre cantigas, ditos, costumes?

Podemos-lhes deixar a iniciativa?
Permitir que eles mesmos desenvolvam o quê querem contar, construam conscientemente o  seu discurso?
Quê pode saír de aí?

A tradiçom é umha tolémia

Livrem-me os deuses de defender os matrimónios concertados e mais os sistemas de dotes e pagos da noiva.
Agora, este sistema imperou em boa parte do mundo e da história huamana até épocas bem recentes, e em muitos lugares continua ativo. Segundo alguns autores (desde Morgan a Levi-Strauss, entre outros), este tipo de apanhos permitiu o desenvolvimento humano criando ligações entre grupos que doutro jeito competirian, desenvolvendo redes de solidariedade e facilitando a supervivência e a integraçom supra-familiar.

Hoje atopo esta nova Someten a terapia a un turco que quiso cambiar a su hija por una vaca.
Resulta-me rechamante que se mantenha este tipo de costumes em Turquia, mas o que realmente me fai pensar é o facto de ser a resposta do tribunal a terapia. É dizer, polo geral, segundo se propaga o estado moderno promulgam-se leis que impedem os casamentos forçados e situan a vontade soberana dos indivíduos como base para a uniom legal. Entom obrigar a umha voda passa a ser delito punido como tal, com multas ou cadeia.
No entanto, no caso da nova, opta-se pola terapia, supom-se que psicológica.
Isto pode ter duas leituras:
a) O tribunal nom considera muito punível o facto (implica umha sensaçom de “normalidade” encol dos casamentos forçados), e opta por este tipo de pena para minimizar o castigo ao pai. No lugar de ir à cadeia, vai a terapia e fai-se como que se “cura” e volta para a casa.
b) Verdadeiramente considera-se que obrigar ao casamento forçado é umha anomalia mental (esta opçom está também implícita na leitura anterior, por quanto de jeito legal se sanciona como problema psicológico). Isto leva a um relaçom curiosa com a tradiçom de matrimónios amanhados.

O ultralaico estado turco chega a considerar, quando menos formalmente, a tradiçom como “cousa de tolos”, comportamento desviado e nom humano nem racional. De jeito semelhante à consideraçom legal do que é maltrato em Espanha, a legalidade situa-se numha esfera ideal liberal de relações individuais e voluntárias e nom contempla outras racionalidades.

Quê revela dumha sociedade considerar o que noutro tempo era normal como umha enfermidade mental? Até onde se dá um alheamento da própria história? Quanto há de desenvolvimento dumha cultura em sim mesma ou de adopçom de modelos foráneos?

Olhado desde essas perspectivas, os peliqueiros, as danças tradicionais, os lumes de Sam Joám, os magostos… quantas tradições nom se podem chegar a considerar cousas de tolos?

A olhada alheia

Proponhem um documental sobre Meigas, consideradas como elemento da mitologia galega.

Para começar, nom sei se as “meigas”, entendendo com este termo a difusa variedade de sanadores/as, sabias, pastequeiros ou o que for se pode considerar “mitologia galega”. Ainda hoje som parte da paisagem cotiám, nom som seres à parte, mas pessoas concretas, vizinhos com determinadas capacidades, aos que se recorre para amanhar problemas de jeito jeito semelhante ao que se colabora com outros para tarefas do agro ou se vai onda ao cura para que oficie umha voda. Também se lhes teme, como aos vizinhos bébados ou ariscos que tenhem escopeta.

Nom foi até que veu umha olhada alheia (espanhola ou espanholizada, possivelmente no século XX -e vaia o meu respecto à obra de Lison Tolosana-) sobre a nossa realidade que as meigas passárom a ser umha característica definitória da Galiza, dentro dumha caracterizaçom de cultura atrasada, rural e supersticiosa. O fenómeno medrou cada vez mais, impulsado pola demanda turística e a necessidade de achegar elementos diferenciais para o consumo alheito até se consolidar como um dos eixes identitários que se podem adquirir nas tendas de souvenirs.

Semelha que é a seguir esta linha que jorde o documental. O filme pretende analizar “el origen de las meigas yendo desde los comienzos de la civilización en Galicia hasta la actualidad, pasando por la llegada del cristianismo, la Inquisición, y la segunda mitad del siglo XX”. Desde logo a apresentaçom do projeto remite mais a um programa sobre fenómenos sobrenaturais (“¿Las meigas existen? ¿Puede alguien causar la desdicha al prójimo? ¿Qué papel jugó la Inquisición en Galicia? ¿Son ciertas las historias de pactos con el diablo?”). É bem sabido é a inquissiçom tivo bem mais trabalho noutras partes do que acô, e a incidência do projeto em esta questom semelha remitir a visões e desenvolvimentos históricos da bruxaria que se desenvolvérom noutros lugares.

A coincidir com isto, atopo este curioso titular: “Froxán, la tierra de los hobbits“. Parece-me um outro de exemplo de como nos definimos através de olhadas alheias. O autor recorre ao mundo imaginário de Tolkien para definir um lugar que considera “mágico, como salido de un cuento” ao gardar “ancestrales tradiciones de la montaña”. Fundamentalmente porque lá se celebra a Pisa da Castanha, recuperada como celebraçom etnográfica logo de séculos a ser simplesmente um labor (celebrará-se um dia o baleirado de xurro das cortes como umha festa etnográfica? :-P).

Revela isto um importante alheamento sobre o nosso rural, pero a maiores amosa umha certa necessidade de procurar umha olhada de intermediaçom para tratar com esse alheamento. No caso das meigas é o olhar folclorista espanhol, no do jornal, o filtro de Tolkien. Quiçais por estarem mais institucionalizadas do que as nossas, por contarem com mais produtos culturais, por verem-se referendadas pola maior difusom, por estarem mais integradas no nosso imaginário contemporáneo. Sei lá.

Entom, cómpre crearmos nós também umha imagem própria para urbanitas sobre o nosso rural e as nossas tradições?

Jurdirá de jeito instantáneo no caso de que conseguirmos umha massa crítica social que as conheça e pratique?

Há que buscar algum jeito de mediaçom em base a produtos culturais “modernos“?

O panteom como espaço público

Coloca una lápida en su panteón para rezar por los estafadores.

 

Um emprego estremo e original do panteom como suporte de denúncia e publicidade.
Até que ponto devemos pensar no camposanto como espaço público fronte à casa na sociedade tradicional/rural?
É o lugar onde se manifesta publicamente o carinho polos falecidos e é mais importante guardar as aparências, te-lo limpo, com flores. Um termômetro de se umha família é de bem ou nom.
Poida que a jogar com isso este homem pensasse em empregar o panteom como suporte para a sua denúncia. A maiores, ensina-nos umha apropriaçom dos símbolos e rituais religiosos para os seus próprios fins, a dizer “os santos estám comigo”.
Ainda mais: Polo que di a nova, emprega o panteom como arquivo dos papeis do caso. Quiçais a jogar com a ironia de sinalar desse jeito como se eterniza a resoluçom da sua denúncia e apontando como há quem o quer soterrar.

Os casos estremos podem ensinar-nos alguns indícios de interesse sobre como funcionam e se concebem as cousas numha sociedade.

A fechar com o caso concreto: Podemos pensar nos cemitérios como espaços destacados desde os que ativar a mobilizaçom social no rural?

Tese do frikismo

Há cousa duns dez anos tivem a ideia dumha tese.
Tratava-se de analisar até que ponto o fenómeno friki (daquela ainda nom era moda nem havia umha oferta tam grande de conteúdos dentro desta etiqueta) era favorecido polo mercado (criando um nicho de público fiel) e polo próprio sistema  (como um jeito de desmobilizaçom social).

Dentro da hipótese pensei em definir a ideia de frikismo atendendo às seguintes variáveis.
Umha pessoa é friki:
– Quando dedica a maior parte do seu tempo livre e cartos para ócio a umha única afeiçom. (Videojogos, manga, rol, música clássica, skateboard, entomologia, filatelia, arqueologia, modelos a escala).
– Quando a maior parte das relações sociais da pessoa se estabelecem através da susodita afeiçom.
– Quando a pessoa considera o conhecimento exaustivo do ámbito concreto  como um medidor do interesse em outras pessoas.
– Quando essa afeiçom nom está maioritariamente espalhada e aceitada na sociedade. (Há quem compre todos os anteriores requisitos mas foca a sua atençom no futebol e nom é por isso considerado estranho)

No fundo, a ideia é que o frikismo supom umha adaptaçom à anómia social, na qual se selecciona umha parcela muito concreta de conhecimento que se busca conhecer de xeito exaustivo e na qual se centra a actuaçom vital da pessoa. Com isto consegue-se umha reduçom da ansidade que, acho, vém dessa sensaçom de controlo. Ademais, permite-se a definiçom dumha identidade e valores que podem vir dados polos próprios produtos culturais de consumo combinados com factores como os próprios preconceitos sociais sobre a figura do friki (entre outros).

A análise pretendia verificar até que ponto as indústrias (editoras, produtoras, criadoras de videojogos) fomentam no seu público este tipo de atitude, procurando que se mantenham enganchados ao produto em questom e os seus derivados. Do videojogo ao filme, BD, romances, figuras de coleçom, webs… E, de jeito transversal, a outros produtos semelhantes. É dizer, umha massa de consumidores potencialmente interessados em tudo ou quase tudo o que saia em determinado campo, e nom consumidores ocasionais dos mesmos.

A maiores, resultava de interesse se, no marco do sistema capitalista, se fomentam dalgum jeito estes jeitos de vida como jeito de desmobilizar umha mocidade insatisfeita com a sua realidade imediata (e polo mesmo potencialmente perigossa?).

É bem certo que naquele momento as afeições vencelhadas a estes comportamentos estavam muito mais compartimentadas do que hoje, onde se dá umha maior transversalidade e boa parte dos produtos entom considerados frikis estám a acadar um consumo muito mais maciço (embora apareçam constantemente novos nichos de mercado).

A dia de hoje acho que as cousas som bastante mais complexas. Polo que o mais provável é que aquela pretendida tese nom passe deste breve post.

O deus cocho

Situando-nos estritamente no marco das propostas de Frazer (que nom podem ser colhidas sem amplas reservas) atopo curiosas coincidências entre as suas propostas de sacrifícios sagrados com a nossa realidade mais próxima.

Segundo ele, quando um animal é morto de jeito mais ou menos ritual num momento específico do ano, e só em esse momento, evidencia-se que esse animal é na realidade a encarnaçom dum deus, que é morto num rito de renovaçom (coma Dionisos, Atis ou Adonis). Evitando a degradaçom da sua envoltura carnal, convida-se ao deus ao renascer e a provocar o renascimento da natureza e dos cultivos, reiniciando o ciclo. Para mais, Frazer engade a proibiçom de matar fóra de data ou um tratamento diferenciado ou honroso à besta em questom como elementos que provam essa sacralidade.

Ao nosso carom, cada ano, na data ritual do Sam Martinho (embora tenha mudado, nom esqueçamos que por danças de calendários a celebraçom é a mesma de Defuntos/Samaím) milheiros de cochos som sacrificados no país, de jeito grupal e cum feixe de ritos de elaboraçom ou proteçom (crenças para para nom se estragar a carne, divisom de trabalho entre géneros, partes com comensais e momentos específicos).

Falamos dum animal, para mais, que vive com as pessoas, que tem a miúdo nome e que mesmo se alimenta do mesmo do que a gente da casa. E é de pensar até que ponto a conhecida fartura das mesas do nosso rural nom se devem (para além de fames pretéritas) ao facto de estar já contando com o cocho da casa como comensal à hora de preparar a comida! (sim é verdadeiramente aventurado 😛 ).

Para mais temos casos bem conhecidos com os porquinhos de Santo Antom, que em diferentes comarcas som alimentados e cuidados com agarimo (e mesmo bem consentidos) por toda a comunidade.

É bem certo que podemos pensar unicamente em termos de que o inverno é o melhor momento para matar e conservar a carne, que a começos de novembro é quando fica vagar doutras tarefas do campo. É bem certo que tudo pode se explicar com facilidade atendendo às necessidades da vida labrega e sem necessidade de meter deuses polo meio.
Mas som quando menos curiosas as coincidências, e dam pensar no cocho como vestígio ainda vivo dum antigo culto…