O sentido do Obradoiro

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Nom tenho muita ideia do que se fazia lá antes, mas tenho claro que por muito tempo a Praça do Obradoiro deixou de ser praça e se transformou apenas num lugar de tránsito, num espaço para salientar a monumentalidade dos (poderes e) edifícios que a arrodeam. Durante muitos anos nom havia nada para fazer lá. Nem actividades, nem espaços confortáveis para estar, nem recunchos que reutilizar (rodeados por toda a parte de poderes oficiais, vigilados). Na Quintana, quando menos, podia-se tomar o sol nas escaleiras, tocar a guitarra, fazer botelhom, atopar-se. Lá, mais abrigados fisicamente e menos controlados pola oficialidade, no pátio traseiro, literalmente, da catedral, era onde ainda jogava algum neno e havia quem, a bordear a marginalidade, fazia dum dispositivo para se trasladar como som as escaleiras um lugar de acomodo. Os mais convencionais ocupavam um banco. Mas, quem sentava no Obradoiro.

A crescente maré de turistas que desde há um quarto de século vai inçando o casco histórico acabou por lhe dar sentido à praça. A ocupar em primeiro lugar (como é habitual) os espaços que a cidadania deixa mais baleiros, os visitantes recuperárom o sentido aquele da praça como plateia da monumentalidade. Ocupárom-na sem ter mais competência que os artistas e vendedores que lá actuam, inseridos também no próprio espectáculo da cidade.

O Obradoiro é hoje um lugar que serve fundamentalmente para olhar arredor. Tem esse sentido. E volta ser umha praça, enquanto há gente que a emprega, senta (a falta de espaços mais especificos), no meio do chao. Tiram fotos, recriam-se com a contorna, atopam-se, mercam e descansam. Fam estas cosusas fora do seu contexto próprio (no bordo da marginalidade também) de jeitos que os locais nom pensariam, cumha reputaçom e umha imagem que manter.

Nom é apenas isso já a praça. É cenário habitual de cánticos improvisados, orações, visitas guiadas. Nos dias de festa, como nom, também dos eventos oficiais, e mesmo é suporte publicitário de diferentes marcas que instalam de jeito pontual carros e aparelhos vários. Mas dia a dia, nom se pode negar que som os turistas os que lhe recuperárom o sentido à praça, os que voltárom fazer dela um lugar em sim, nom apenas umha área pola que se passa a correr entre destinos. Dá para pensar também, no jeito no que se ocupam os espaços, em até que ponto pode vir também gente de fora dar-lhe sentidos novos às nossas cidades.