A ideologia é questom de gostos

Penso que, mesmo nesta altura da vida, e por muito que elaboremos as nossas ideias gostamos de cousas de jeito mais bem primário. É depois que construímos justificações ideológicas. Definimo-nos como de esquerdas, hipsters, culturetas, conetamos com ideias semelhantes, deixamo-nos levar por gostos de arredor. Mas acho ainda que as afinidades começam de jeito primário. Que é por atoparmos sensações da infáncia, respostas a angúrias íntimas, lembranças a momentos vividos em certo discurso/produto/livro/filme/ideologia/grupo que o adotamos e nos identificamos através dele.

Assim integramos o nacionalismo como umha defesa da aldeia da nossa nenez, como se estivéssemos a defender os nossos avós através das reivindicações. Mesmo que afinal saibamos que nom é exatamente isso o que imos conseguir, de conseguirmos algo. Na mesma, som os gatos, cans, vacas da nossa vida os que se agocham no nosso discurso animalista, e as paisagens primeiras, e polo tanto para nós incorruptas que conhecemos nos passeios em bicicleta na puberdade as que tomam forma na nossa luita ecológica. Conetamos sem sabermos bem por quê com cousas que na realidade nos falam doutras histórias. As nossas rebeldias primárias, a sensaçom de poder quando nom comemos o que nos dam ou nos negamos de crianças a repartir os bicos que nos pedem estám ai nas nossas escolhas. O consolo dum lugar. O agarimo dado na língua na que nos falou alguém. Do mesmo jeito, quantas más experiências cumha pessoa concreta marcárom para sempre de jeito negativo a sua ideologia e os seus gostos para nós.

Afinal, queiramos ou nom, mantemos preferências emotivas inconscientes polas cousas, por todas elas, lá no fundo. Cores, materiais, objectos. O número 2 mantém para mim o engado de quando pequeno, agarimoso fronte à fascinaçom pola estranheza do cinco, a agressividade do 3 ou a atonia do 4. Do mesmo jeito, há recantos, sons, céus, momentos que espertam diferentes sensações. E aí também as ideias, os personagens, as declarações. Filtramos também a gente no mesmo critério, por muito que logo elaboremos a nossa reaçom, e mesmo possivelmente integremos cada nova pessoa conhecida num catálogo limitado de arquétipos que elaboramos na nossa infáncia (primeiras amizades, companheiros de escola…).

Assim, dalgum jeito atua umha estranha sinestésia na base da configuraçom da nossa identidade. Acabamos por nos definir em questões derivadas daquela conexom primária, adotamos o construto teórico ao completo sem nos decatar, afinal de que apenas estamos (sempre) a luitar de jeito estranho
contra aquele eterno inimigo que é o tempo
na busca dum refúgio.