Os chiquitos

Há tempo que som tremendamente consciente da desapariçao do chiqueteo. Cada vez menos gente (sendo fieis à realidade, menos homens) saem tomar uns vinhos. Se bem pola noite ainda é possível atopar lugares onde se reúne a gente e toma umhas canecas, a atividade etílica que há cousa de 20 ou 30 anos se dava a meio dia e ao cair a tarde em qualquer casco histórico galego (e nom só) desapareceu. E também o figérom os bares que o albergavam. Conhecida é a reconversom dos locais do Franco en Compostela, entre outros casos.

Do mesmo jeito que outras mudanças de comportamentos (por exemplo do declínio das praças de abastos), este declíno pode-se relacionar cumha serie de factores.

– Por exemplo, o facto dos chiquitos a meio dia reflectiam umha disponhibilidade temporal dos homens, que saiam do trabalho e ainda tinham oco para passar pola tasca antes de ir jantar à casa e, em muitos casos, voltar a trabalhar pola tarde. Isto implicava tamém o mantimento dum contacto diário com a família e com conhecidos.
– Evidentemente, tanto o trabalho como o ócio e o domicílio estavam localizados relativamente próximos e céntricos, o que nos amosa o troco brutal no jeito no que habitamos os nossos centros urbanos, com cidades-dormitório afastadas e áreas especializadas no ócio (centros comerciais, certas zonas históricas) diferentes daquelas onde se desenvolve a actividade económica.
– As mulheres encarregavam-se do subministro de alimentos, e em muitos casos compatibilizavam isto com o trabalho ou bem nom trabalhavam. Dum jeito ou doutro dedicavam-lhe tempo a ir à compra por diferentes comércios ao longo da manhá e visitavam demoradamente as praças de abastos. E logo faziam o jantar. (Nom digo que isso estivesse bem).

Desde entom vimos mudanças como:
– A externalizaçom da criança em entidades profissionais
– A especializaçom das áreas urbanas (promovida pola especulaçom que afasta a gente dos centros, os próprios interesses económicos das companhias e as políticas que o permitem)
– A difusom dum modelo de trabalho próprio das grandes companhias (mais “eficiente”) ao conjunto das empreas
– A concentraçom do ócio/consumo em determinados tempos e momentos do dia e da semana
– As tentativas de optimizar a produçom com jornadas contínuas.
– A necessária incorporaçom da mulher ao trabalho, que para além da necessária realizaçom pessoal, dá-se também pola necessidade de maiores ingressos para cobrir os gastos derivados de vários destes procesos como a criança, os alojamentos mais caros, os carros necessários para mais depraçamentos diários ou mesmo o ócio vertebrado cada vez mais como consumo.

Dum jeito ou doutro, artelhamos as nossas vidas a partir de modelos optimizados de trabalho e consumo pensados para favorecer as companhias, nom necessariamente os nossos interesses. Centros comerciais, cadeias de restauraçom, cinemas, pacotes vacacionais, Internet, venda a domicílio. Dum jeito ou doutro, a maior parte da oferta comercial nom favorece a socializaçom fora dos círculos mais imediatos de amigos e família.

Deste jeito, com a desapariçom de espaços como o chiqueteo ou os mercados, finam também espaços de socializaçom abertos, onde se dava um contacto mais ou menso frequente com círculos alheios. Vizinhos, conhecidos de conhecidos, pessoas anónimas com as que se desenvolviam conversas casuais ou, com o tempo, habituais. Eliminam-se assim círculos de debate, espaços onde se gera opiniom, onde se escuitam diferentes visões e onde entram em jogo as perspectivas, a capacidade de convencer, o creto que se lhe outorga a interlocutores fisicamente presentes. Compare-se isto com a receiçom passiva dos mídia ou os debates anônimos ou ausentes de Internet.

Cabe interrogar-se pola homogeneidade ou nom destes espaços (na minha memória semelhavam-me bastante interclassistas, mas pode ser umha impressom errada), e mais polo jeito no que se gerava opiniom no seu seio. Nom devemos esqueçer que o anonimato também gera umha relativa maior liberdade e evita até certo ponto a pressom do grupo para obter consenso.

Nom digo que estivesse bem beber tanto, nem que a gente estivesse mais conscienciada de nada. Mas desde logo, algo de medo mete-me. Nom nos estám a faltar espaços deste tipo? Nom estamos a ceder vida de mais a prol do consumo?

(E dos parques infantis melhor nom falo, que me dam terror…)