Amor às margens

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Porque é nas margens que para o tempo.
Lá estám os joguetes rotos, lá se reconhecem muros como os que na infáncia compartim com meu pai.
Ali atopo as varandas aquelas às que me aferrei com o passo inseguro quando eram mais altas do que eu.

Gosto das margens polo que tenhem de arqueológico, polo seu jeito de acumular um lixo
que conta histórias.
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Lá se evidência a quê nom lhe damos valor, quê pode ser apanhado, reutilizado, reconstruído, reinventado sem problema nengum.

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Lá se dam as reclamações de soberania do briom e das flores silvestres nas superfícies de formigom.
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Possuem um aquel de acobilho, fora da corrente principal.

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Como a jogar as agachadas é comer a sandes num portal ou beber a cerveja nas ruínas.
Som jeitos de reclamar também a propriedade de refúgios fugazes e inseguros
como agora que finco o pé num cemento como o que há anos se botava nos chaos dos parques, como agora que sento num banco gasto e demodé.

Quanto mais as conheço, mais as identifico, as margens.
O desenho dum jardim, blindado contra os junkies, vem da Era da Heroína.
O material das escaleiras, as lousas grises quadriculadas, as varandas feitas de tubos, chegam dos primeiros anos oitenta. Os cartazes de ferretarias criadas nos sessenta. Os bares com o granito rosa de começos dos noventa que ainda nom mudárom. As arquiteturas que estavam ai quando os meus pais eram novos, o estilo de portas que já a minha avoa viu.

Descobro cada vez margens em mais espaços. Pegadas quiçais doutros tempos,
espaços ainda de liberdades, a resistir fora do mercado.

Som as pequenas tendas que ninguém sabe como sobrevivem, as aldeias desertas, as construções baleiras e sem rematar, as ruínas, os centros culturais sem emprego, as beiras dos rios, os anacos de hortas perdidos sem dono no meio da cidade, os descampados, os passeios sem edifícios detrás, o periurbano, as ruelas onde ninguém vai, as galerias comerciais já desertas, as estações infrautilizadas, os pequenos parques que se figérom e ficárom esquecidos, as garagens, os limites, tudo aquilo que nom se sabe a ciência certa para quê é feito, nem quem tem direito a empregar.

Nom-lugares tácitos, que ficam para o que nom queremos amosar,
recantos que o poder esquece.

viaxe a galiza.nadal 2005 016

Lugares para se drogar, foder, pintar, construir, se conhecer, fazer festas, gardar tesouros, quebrar a lei. Lá vam também as margens da sociedade. Lá se inventam e recriam empregos. Dança-se breakdance, fai-se skate, pintam-se as paredes, canta-se, debate-se, experimenta-se, geram-se ligações, joga-se, violenta-se, está-se em soidade.

Será desde estas margens que jordem jeitos e modas que se fam maioritárias. Que se geram novidades. Que se pode pensar em liberdade e com certo espaço, zonas temporariamente autónomas, possíveis independências quiçais, se as activamos.
Lugares pequenos nos que trabalhar, nem sempre físicos. Também ocos no sistema, erros na Matriz, recantos de sombra, momentos nos que nom se nos define, encontros, surpresas. Idades, géneros, identidades marcadas e nom centrais, línguas minorizadas, culturas e comunidades em extinçom. Tudo pode ser espaço marginal e potencial.

E também aqueles intres de silêncio ou de dança nos que cada um de nós rachamos o jeito (auto)imposto de sermos
e albiscamos o infinito das nossas possibilidades.
Adoro as margens.

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(É em este contexto que defendo a ideia do rural como umha margem, como umha periferia relegada polo urbano. Porque ao tempo que denúncio essa marginaçom, reclamo-o como espaço de criaçom e de alternativas, como Sierra Maestra desde a que chegar à Habana.)
(Todas as fotos forom tomadas por mim mesmo em diferentes margens da Galiza)