Um sonho que se fai

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Case esqueço sentir-me ledo. Quase esqueço a maravilha. Mas quando espertei, no meio da noite, veu essa sensaçom. Hoje é um grande dia.

Há como uns 15 anos descobrim a história de Barriga Verde e dos Silvent no primeiro número da revista Bululú, e aginha fiquei fascinado, como sempre acontece as primeiras vezes que atopas num livro umha memória que contava à avoa e à que nom lhe deras especial importáncia.

Desta volta também, Barriga Verde era história de Hermínia, da sua infáncia lá polos anos 20 e 30. E era também lembrança dos meus pais, nos 40 e primeiros 50, em Noia. “Morreu Barriga Verde, acabou-se a peseta”, diziam. E agora estava ali a história misteriosa daquela gente que entretivera aos meus maiores, dalgum jeito salvada e recuperada.

Aos poucos forom aparecendo cousinhas. Um texto de Dosinda Areses, artigos de Xaime Iglesias em Cedofeita. E eu ia contando na casa as descobertas. Que José Silvent aprendera galego em Portugal. Que vivira em Lérez, ali a poucos quilómetros da nosa casa. Que o que era umha memória familiar resultava ser umha memória social, compartida por gente de todo o país.

Era ademais a história dum empresário que apostava polo galego, sendo estremenho. Era o conto do teatro na nosa língua baixo o franquismo. Era a lenda daqueles bonecos que batiam no cura. Era aquele títere que era o mesmo por toda Europa com diferentes feitios desde havia séculos. Sem saber bem qual era, eu remoia o potencial daquelas memórias.

E sonhei em revivi-las, que mais gente as conhecesse. Como se assim lhes digesse aos meus velhos que o que eles lembravam nom era apenas um conto de crianças. Que era algo importante, um fragmento de memória e de identidade colectiva. Umha cousa mundial. Um berro em tempos de silêncios. Expossiçom, merchandising, recuperar memórias, publicar livros. Escrever na rede. Berrar onde for que Barriga Verde estivo e está ainda aqui, convencido de que haviam aparecer ecos e mais ecos.

E fum atopando polo caminho gente que tinha esses sonhos também. Assim dei com o Pedro, que amou o conto e armou um documental. E em esse proceso, também se fascinou a Comba. E aparecérom os Viravolta e a sua velha teima de reconstruír umha barraca. E o Xaime continuou calado o seu trabalho a recuperar a memória dos Silvent em Lérez. E mais gente que também viu a vida que gardava aquele títere dentro da cabeça de madeira.

E foi graças a eles todos que o sonho comum colheu forma. Nom fum eu quem o fixo realidade, afortunadamente. Teria sido muito triste construír sozinho um sonho, e de certo nom seria quem, como nom fum quem em todos estes anos. Forom eles todos os que me dérom a graça de construírmos juntos esta aventura. E há um documental, e um web, e umha barraca e umha obra em marcha, e livros, e actividades… e Barriga Verde vai resoando.

E hoje mesmo, esta tarde, abre as suas portas aquela sonhada expossiçom, logo de quinze anos. Nom fum eu quem o fixo possível, mas hoje espertei e (quase me esqueço), decatei-me de que era tempo de me sentir feliz. Porque está a se fazer possível. O mundo deu-nos um bocado de razom, e demostramos que Barriga Verde ecoa com força lá por onde se berra o seu nome. E que se podem fazer cousas, que se podem mudar um bocadinho, que se pode chegar longe a partir de apenas umha ideia. E, no proceso, medrar.

Obrigado.