Umha merda para ti. (A dejeções caninas como facto social total)

(Reconheço que a ideia me veu à cabeça no meio da noite, de jeito que sim, é umha ideia peregrina).

Achegando-se à ideia de facto social total de Marcel Mauss, segundo o qual “os fenómenos sociais são totais e têm implicações, simultaneamente, em vários níveis e em diferentes dimensões do real social, sendo portanto motivo de interesse de várias, quando não de todas as ciências sociais”. Tende a se interpretar isto no sentido de que um mesmo fenómeno pode revelar a diferentes níveis como está constituída umha socidade e mais a sua cultura. Penso entom em quê dim da nossa sociedade o fenómeno das merdas dos cans abandonadas nas vias públicas.

Assim sem lhe dar muitas voltas, jordem diferentes leituras que podem explicar a tendência a este facto.

Que nos di a merda na rua sobre a sociedade?

– Que é umha sociedade no que nom há um presom comunitária fote sobre determinados ámbitos de comportamento considerados privados, ou bem que esta é feble. É dizer, falamos dumha sociedade individualista.
– Também se poderia entender que é umha sociedade que nom tem na limpeza de espaços públicos umha prioridade.
– Que nom se promove o emprego e gestom comunal dos espaços públicos, mas que a mesma fica profissionalizada, e que nom há recursos abondos para a garantir.
– Que nom existe umha cultura destacada de aproveitamento de refugalhos. A merda de cam sempre de tratou assim nas cidades occidentais. Nom há exemplos prévios de recolhida. Nom houvo um aproveitamento do esterco para usos agrários (com exceições como merdeiros de Vigo ou quiçais, en tempos nos que o cavalo tinha presença nas urbes. A ideia de recolher merda do chao resulta até há pouco tempo totalmente estranha.
– Que o trabalho com a merda (limpeza, reutilizaçom, estrado) é visto como algo degradante. Ergo, observa-se umha sociedade classista, na qual o ideal higiénico se ajeitará a trabalhos e jeitos de vida sem esforço ou contacto com a terra, maquinária ou actividades que podem lixar. Tocar merda é algo, numha sociedade urbana que tem a burguesia como modelo de comportamento e de higiene, sumamente degradante.
– A maiores é umha acçom cómoda: A merda é singela de deixar e complexa de tirar da rua.
– Do mesmo jeito, pode-se interpretar como umha agresom passiva. Nom supom um dano directa a ninguém. No entanto, a merda fica na rua e o seu destino é ser pisada.

A incidir em esse último ponto, o facto de deixar a merda na rua ou no jardim amosa um alheamento da sociedade. O próprio dono do cam que deixa a merda nom quer à súa vez ser vítima de pisar umha. Entom actúa porque o seu contorno (nom familiar nem imediato) nom lhe importa ou bem como se nom lhe importasse. O facto amosa umha carência de empatia. O indivíduo nom se identifica como parte do colectivo, nom exerce a norma básica de tratar aos demais como quer ser tratado. Dalgum jeito, as merdas nas ruas som um reflexo da sociedade capitalista urbana, da ausência de elementos comunitários na convivência cotián. O dono do cam nom é parte da sua vizinhança, da sua cidade. Nom considera suas as ruas nem muito menos a responsabilidade mínima da sua conservaçom.

Pode-se interpretar tamabém o lijado consciente e continuado das ruas como um proceso de resistência cotiá fronte à situaçom vital, de válvula de escape ante os problemas. O trabalho, as presões familiares, a incerteza sobre o futuro, os problemas económicos. Culpabiliza-se dalgum jeito o conjunto social e deixa-se umha merda de cam na rua como a dizer “nom se fam cargo dos meus problemas, cagho por eles”.

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Na realidade, o fenómeno que me semelha fondamente interessante é o jeito no que, nos últimos anos, conseguiu-se mudar esse comportamento. A ameaça de multas, as campanhas publicitárias e umha maior conscienciaçom acadárom por modificar em grande medida este hábito. Procesos semelhantes temos visto com outros como o tabaco ou o emprego do cinto de segurança, mas se quadra é no caso das merdas onde mais interessante me resulta por quanto nom implica a saude nem a integridade dos destinatários das campanhas nem o bombardeio publicitário foi tam forte.

Semelha que em este caso, fora de grandes campanhas publicitárias (como as do tráfico ou o tabaco), o que realmente funcionou foi a comunicaçom de proximidade em paralelo à ameaça coercitiva com as multas. Factores como pequenas publicidades, muitas vezes criadas polos próprios vizinhos, o apercebimento público de que se está a exercer um comportamento nom desejado ou o exemplo possitivo doutros donos de cans dérom numha menor quantidade de detritos na rua. Comentava ontem um amigo a possível relaçom do fenómeno com os novos jeitos de tratar os animais de companhia que se estám a desenvolver. O papel dos conversos à nova conduta que, como noutros ámbitos, fam-se os principais valedores da mesma, contribue ainda mais a espalhar o novo jeito de agir. O que até há nom muito era um comportamento “normal”, passou a ser um comportamento “marcado”.

Modificar um hábito tam arrigado e que implica para a sua erradicaçom um trabalho sistemático e contínuo dos donos dos cans, implicará também umha mudança no jeito de perceber o resto da sociedade? É dizer, embora comece como umha coacçom económica, pode derivar a presom para a recolhida em que os próprios donos acabem reconhecendo as vantagens do novo comportamento e reconheçam os seus vencelhos com os contorno e a vizinhança?