O jogo periférico (I)

Ai atrás veu-me à cabeça a ideia do jogo infantil, sobre tudo o chamado tradicional como actividade socialmente periférica.

Afastado em princípio do sistema produtivo (embora serve para definir os roles e as actitudes que logo deberám dialogar com esse sistema), é executado por seres periféricos (crianças) numha sociedade que tem no adulto masculino o seu eixo. Ademais, desenvolve-se (sobretudo de jeito tradicional) em espaços periféricos que nom tenhem usos produtivos: Prados, ruínas, praças, ruas pouco transitadas. É dizer, nas margens do sistema. Antón Cortizas lembrava acertadamente que é nas vilas onde melhor se mantenhem os entretimentos tradicionais. A existência de grupos de nenos, que já nom há nas aldeias, suma-se à conservaçom espaços mais ou menos livres nos que poder jogar.

Fronte a estas formas semelha que sofremos, como em tantos outros ámbitos, um proceso de controlo crescente. A introduçom do jogo na escola, a sua transformaçom em deportes regulamentados, a criaçom de espaços acotados e guiados para os jogos em parques e infantários ou os esforços pola sua inclusom na cadeia de produçom-consumo mediante videojogos e brinquedos industriais som exemplos destacados desta linha.

A questom é que estám a desaparecer dum jeito acelerado as formas de jogo “comunitárias” (acô outro estudo a ter em conta sobre o tema). Nom falo apenas dos entretimentos que se deixam de jogar, mas do próprio jeito de se relacionar entre as crianças durante o proceso. A criatividade própria da improvisaçom dos jogos, a manipulaçom da contorna para construír os próprios joguetes, os procesos comunais de toma de decisões ou os debates sobre as normas (e o jeito no que se observam ou nom) som algumhas das cousas que minguam ou desaparecem fronte a jogos fabricados e com normas claramente definidas. Mesmo sem sermos catastrofistas e reconhecendo que sempre (sempre) há possibilidades para a criatividade e reinterpretaçom, mesmo nas actividades mais regulamentadas, e mais em este ámbito, sim que semelha haver mudanças nas relações sociais da infáncia. E semelha que, como em outras questões, é na periferia onde é possível umha maior liberdade.

Umha boa mostras é este interessantíssimo estudo sobre a movilidade das crianças que amosa o jeito no que se reducírom os seus espaços de autonomia ao longo do último século (de seis millas a 300 jardas no exemplo). Atopamos entom umha diminuçom progressiva do espaço de acçom e da autonomia das crianças. Isto semelha aparelhar uma míngua similar do que consideramos “zonas seguras” para que transitem o qual, ao tempo, pode transmitir a ideia dum exterior “perigoso” que com certeza há condicionar a sua visom do mundo.

A existência de grupos de diferentes idades, nas que os maiores cuidam e ensinam (e abusam, e fam bulra) dos pequenos, som um fenómeno estranho nas cidades, e mais nas aldeias. Tenhem-me feito notar as urbanizações, com os seus espaços acotados, como novos espaços de actividade que permitem a formaçom de bandas de crianças com certa liberdade sempre dentro duns limites físicos e sociais (teórica compossiçom social homogênea dos habitantes). Em relaçom à autonomia espacial, o grupo revela-se, até certo ponto, como garante de seguridades para os máis novos ante os adultos: há membros nos que confiar, miram uns por outros. E isso permite também umha maior autonomia, umha possibilidade de espaços afastados dos adultos: A maior liberdade é possível só com outros, em companhia (mais umha liçom que se pode obter desse jeito de jogar).

Ainda mais, o jogo tradicional dá-lhe umha nova utilidade e mesmo pode ajudar ao mantemento de áreas periféricas abandonadas (desbroce, construçom de cabanas, cuidados de ruínas), resignifica lugares, desde umha velha escola até um antigo castro e dam-lhes um valor vencelhado ao lúdico (“onde jogam os nenos”).

Quê estamos a perder como sociedade? Como vam ser os nenos criados sem rua? Haverá muita diferença? Podem as relações que se desenvolvem no marco da escola suplir a anarquia dos grupos de jogos?
Até que ponto imos mudar?

Actualización: Peter Gray explica isto tudo muito melhor do que eu em este artigo.