Umha sociedade de festa

Ponhamo-nos, por exemplo, en 1914. Um dia de semana qualquer. Um homem e umha mulher novos atopam-se numha aldeia galega. Ele está a sachar com pouco ímpeto e ela vai caminho dalgumha tarefa.

– Antón, tes mala cara! Andas doente ou?
– Cala, Carme cala, que ontem juntamo-nos na casa do da Pantera e acabamos às tantas. Mimadrinha que perda de papeis. Nom bebemos mais vinho porque nom havia! Vaia festa! Hoje erguim-me tardíssimo e agora nom há quem trabalhe. Estou por ir já para a casa durmir.

O diálogo é totalmente inventado, e só pretende amosar o relativamente estranha que nos pode parecer a situaçom. E é que, mália às investigações de recuperaçom musical e da recuperaçom dos fiadeiros, seráns e similares, acho que a imagem geral da sociedade tradicional (como sempre, empregue-se o termo com todas as reservas) non contempla a importáncia das festas.

É dizer: o diálogo poderia ser pefeitamente real, mas para umha grande parte da povoaçom galega há resultar chocante, ao amosar uns comportamentos (festa, alcool, desleixo polo trabalho) que se contemplam como negativos e que mesmo se adoitan vencelhar à mocidade e à modernidade.

E, no entanto, é sabido que había festas. Mais, transmitiu-se essa imagem, o conhecimento dos jeitos festeiros que existiam no rural?

Acho que muito se perdeu. Em boa medida porque é nos próprios ámbitos festivos onde se transmite esse conhecimento na forma de anédotas, canções e lembranças. Assim, sabemos histórias das verbenas e das festas patronais porque estas (ainda) se mantenhem vivas (e mesmo se revitalizam, como sostém Garcia Porral). Canda a elas, mantenhem-se os jeitos e as histórias dos jantares familiares, e chegam ecos de como se celebrava o Entroido.

Mas é bem possível que permaneçamos na inoráncia de como eram os encontros noturnos que se davam nas casas de jeito improvisado, ao melhor com os nenos já na cama. Ou como ser armavam as festas com motivo das tarefas coletivas. Nesse sentido, o trabalho de recuperaçom dos seráns e dos fiadeiros ham ser fonte para os seus participantes dum bom feixe de anédotas e dum maior conhecimento dos jeitos de festa dos nossos maiores.

Por quê essa ruptura da transmissom? Porque nom estamos a falar do tipo de conhecimento que se transmite exactamente de pais a filhos. As trasnadas, os maus hábitos, os encontros com o sexo oposto ou as cantigas de carácter sexual nom fam parte do conhecimento que chega dentro da família (de jeito geral). Cómpre umha transmissom diferente. Irmaos maiores, encontros de amigos de diferentes idades, gente alheia à casa que conta histórias de mocidade. Circunstáncias que, na desertizaçom rural, no agrupamento das crianças por idades nas escolas e, em geral, na modernidade, nom se dam. A gente maior quer amosar umha boa imagem de sim mesma, e mais aos filhos e aos netos. Nom contarám como se embebedavam ou como andavam a mocear. Falarám do esforço contínuo, do trabalho, das dificuldades e dos sacrifícios para criar os filhos.

E é que, insisto, é no contexto específico onde se produz essa transmissom. Assim, ainda hoje os velórios, bem menos festivos, dam para lembrar no tanatório como transcorriam antes as cousas. Eu mesmo ouvim por vez primeira ao meu pai cantar um cantar de cego quando fomos os dous sozinhos a umha voda, já eu com quinze anos. E por aquela altura também um amigo dele contou algumhas trasnadas da sua mocidade. Cousas que nom se lhes contam aos nenos. Mas esses contextos festivos desaparecem, como tantas outras cousas.

Se a essa falta de transmissom sumamos a imagem que se está a geral sobre o rural, como um espaço no que nom acontece nada, tudo vai a modo e os habitantes som sobretudo gente de idade que bota o dia tudo a trabalhar sem descanso, gera-se a (falsa) impresom de que sempre foi assim e desaparece mesmo a curiosidade por conhecer essoutro ámbito.

E, no entanto, é sabido que nom faltavam ocasiões para a festa. Que o número de dias feriados era moi superior ao actual e que aos de cada paróquia havia que sumar as festas das paróquias vizinhas. E as festas vencelhadas às tarefas coletivas (esfolhar, colheitar, segar, fiar), as muinhadas, as feiras e romarias, os encontros improvisados…

Muitas ocasiões que, nom digo eu que se aproveitassem sempre, mas que quiçais devamos ter mais em conta quando pensemos em como era a vida entom…

2 reflexións sobre “Umha sociedade de festa

  1. Lembro de cativo cando viñan a matar o porco…o rematar frixian un filetes e todos comíamos e os maiores bebian. Gustábame por que trasnoitabamos e aprendín moitas cousas sobre os meus e a parroquía en xeral… Magoa que xa non se tope tempo para cousas asi.

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