A relaçom com a natureza é cultural

Um artigo em vários meios galegos sobre a resistência e o jeito a sobrelevar perdas e catástrofes amosa algum dos prejuíços mais comuns sobre Galiza, a ideia dumha “autenticidade” identitária que jorde da terra.

No texto, pom-se na boca de Juan Luís Pintos (reconhecido sociólogo cuns interessantes trabalhos sobre imaginários sociais que tenho pendentes de ler a fundo) toda umha série de declarações que abondam no mesmo ponto:
‘Yo diría que en Galicia estamos más cerca de los elementos primarios y de los importantes desde el punto de vista vital. Todavía no estamos desarraigados
y carecemos del principio de anonimato propio de las ciudades’.
‘Tenemos una cosa que no se da en otros lugares y es que estamos más cerca de los orígenes campesinos que de los urbanos. Es decir, aunque la gente viva en ciudades, todavía mantiene unas ciertas raíces que hacen que la gente esté menos alejada de sus elementos vitales’
‘En Galicia estamos en una situación en la que existe una mayor cercanía a los elementos básicos de la vida, que son fundamentalmente los familiares o el paisaje’
‘¿por qué la gente se va a pasear a la orilla del mar con olas de nueve metros?, pues porque le gusta; otro ciudadano huye del peligro, está más separado de los recursos que tienen que ver con las cercanías vitales, con sus orígenes’.
‘el carácter gallego es más resistente, tiene una capacidad mayor de resistencia. Habitar en ciudades debilita las capacidades de resistencia frente a fenómenos naturales, porque no se vive en ciudades, se vive en hábitats cerrados al margen de lo que sucede fuera’

Para além de que nom entendo a quê se refere com os elementos “vitais e primários”, a repetiçom do argumento fai-me pensar que nom é umha descontextualizaçom do jornalista (o qual nom deixaria de amosar os mesmos prejuíços.

A ideia, amplamente estendida, simplifica enormemente a complexidade da sociedade galega. Em cidades como A Corunha ou Vigo, nas suas áreas metropolitanas e mesmo a nível de vila desenvolvem-se desde há anos jeitos de convivência todalmente urbanos, nos que existe esse anonimato que Pintos renega. Aliás, se bem podemos entender que há um alto número de pessoas que retornavam e retornam à aldeia na fim de semana, está por ver até que ponto isso implica umha conexom com “elementos vitais”. Do mesmo jeito, este mesmo fenómeno refuta a ideia da cidade como hábitat fechado. Para além: somos mais naturais que quêm? A quem estamos a considerar “civilizados” e afastados do meio?

Falar dum carácter galego mais resistente às desgraças por um maior contacto coa natureza parece-me umha simplificaçom perigosa, nom exenta de elementos coloniais. Situa umha comunidade complexa e variada numha situaçom de “bons selvagens”, autênticos e naturais mas, pola mesma, atrasados e com maiores dificuldades de se enfrontar à anovaçom. Em Gabom, o diretor dum museo etnográfico explicava que os pigmeos estavam mais próximos à natureza do que outras tribos do país. E engadia a seguir. “Conhecem a selva como ninguém. Som o elo entre o animal e o ser humano”. Este tipo de razoamentos adoita levar ao mesmo lugar.

Embora Pintos chega a mencionar a família, acho que óbvia o componhente de relações sociais e práticas culturais que podem explicar essa suposta (está por ver se é real) resistência da sociedade galega actual ante catástrofes, que ele vencelha a essa misteriossa conexom com elementos primordiais e à natureza. Precisamente é em esses ámbitos onde se situa a possiçom de Gondar na que no texto, no entanto, nom se deixa claro que já nom nos situamos numha sociedade tradicional, que os jeitos “modernos” de se enfrontar à morte estám presentes entre nós.

É dizer. A gente do mar nom é que leve melhor as desaparições e accidentes porque olhem o mar a diário e trabalhem em ele. Em todo o caso farám-no (os que o fagam) porque vivem numha comunidade que lhes ensinou que o mar é assim, que se podem agardar perdas desse tipo, que lhes ofertou ferramentas, ditos e crenças com os que gerir de determinado jeito a dor. No entanto, essas redes sociais, o sentimento comunitário ou o apoio mútuo nom som fenómenos uniformes em todo o território nem em todos os ámbitos sociais. As enemizades, invejas e agressões fam também parte da vida em comunidade, nom esquezamos.

A relaçom com a natureza é também umha relaçom cultural.