A dualidade do Apalpador

Surpreende aos investigadores atopar testemunhos que apresentam o Apalpador como um personagem ao que se lhe tinha medo e com o que se ameaçava aos nenos. Dentro dos relativamente poucos testemunhos que se conservam mestura-se a missom do personagem como portador de agasalhos e como justicieiro que castigava comportamentos desviados nos mais pequenos.

No entanto, nom é tam estranha a dualidade dos personagens vencelhados ao Solstício de Inverno. Se já os próprios Reis Magos, com toda a depuraçom e infantilizaçom à que se tenhem visto submetidos, mantenhem ainda o castigo na forma de deixar carvões, noutros lugares divide-se o papel de recompensa e de castigo entre dous personagens, como é o caso do Pai Natal e do Krampus ou de personagens como o Knecht Ruprecht que também carregam, como o nosso Apalpador, sacos, o segundo mesmo cheio de borralha.
Recentemente, atopei umha mínima referência da zona da Lama, independente em contexto do Pandigueiro, que fai referência ao feito de “sentir que o apalpam a um” quando está sozinho como um aviso de morte, o que pode ser um ingrediente a engadir á complexidade deste mito e estar vencelhado ao seu aspecto terrorífico.

Assim, há indícios (ver o imprescindível Teoria de Inverno) que apontam o personagem galego como umha máscara de Entroido que cumpre a funçom de passar por diante das casas a fazer barulho e manchar con borralha. Há a possibilidade de que mesture dous ou mais personagens prévios num só ente, ou que fosse noutros lugares onde um personagem original acabasse escindido em dous. Segundo a família ou o lugar puido prevalecer umha ou outra funçom, e soster-se o rito do “apalpadoiro” que os fais faziam aos filhos (deixando as castanhas e propiciando um ano de fartura) em detrimento do personagem/máscara que agasalha ou castiga.

Do que no nom fica dúvida é de que estamos ante um elemento bem complexo, e que a nossa pescuda nom se pode reduzir a localizar presença ou a ausência dum carvoeiro que traz agasalhos. Há indícios de personagem, de rito, de comportamento dual, de máscara de entroido e de muitos outros elementos. Num momento no que somos muitos os que queremos contribuír a recuperar o nosso patrimônio e tradições devemos procurar indagar na complexidade dum fenómeno, quanto mais interessante a mais indefinido.

(Lembrar, a fazer autobombo e publicidade que na Adra número 7, editada polo Museu do Povo Galego, pode ler-se um artigo meu sobre o proceso de recuperaçom desta figura en contextos urbanos).


ENGADIDO:
Lembra-me o Xabier Seixo a existência do filme Sint, que gerou umha importante polémica por apresentar um Sant Niklas terrorífico, e mais do Pai Natal de Futurama, que semelham actualizações nas margens (ou nom tam margens?) da cultura pop dessa parte escura do personagem que o mainstream da cultura occidental obviou ou agochou.