O feísmo desenvolve-se no baleiro

Ao olhar a galeria fotográfica, dá-me por pensar o feísmo como umha descontextualizaçom de elementos.

Explico.

Existe um jeito de uso específico dum elemento (eletrodoméstico, móvel, elemento construtivo), que aprendemos e nos amosa como o empregar corretamente para que desenvolva a sua funçom: Como quentar a comida num forno, juntar os valados de obra, colocar um pneumático.

Canda a estes conhecimentos, cada sociedade marca uns códigos de uso implícito que determinam o contexto no que se pode empregar e como se pode empregar cada elemento, uns termos que variam de grupo em grupo. Assim, os pneumáticos som reciclados para fazer calçados em muitos lugares, enquanto acô nom se concebe tal cousa.

É como ter um sombreiro e saber que é para pôr na cabeça, mas ignorar as normas sobre se é de recibo te-lo posto em interiores (segundo códigos já em processo de periclitado).

Do mesmo jeito, podemos considerar o que chamamos feísmo como um uso desregular e alternativo de elementos. Propostas de reutilizaçom no que se transgredem limites que, desde umha olhada urbana e desde os códigos internacionais actuais que implica, nom tenhem jeito. Racham-se fronteiras como público-privado, interior-exterior, uso único-multiplicidade de usos. Temos móveis na rua, eletrodomésticos que tenhem novas funções, emprego para fins privados de valados teoricamente públicos.

O feísmo é umha reutilizaçom de objectos “novos”, de elementos que a povoaçom periferizada adopta com as suas normas de uso específico mas sem conhecer completamente os códigos de uso e reutilizaçom.

É o nosso rural ou rururbano o que é considerado polo geral como principal ámbito do fenômeno, embora acho que se podem localizar manifestações similares qualquer outra periferia social, visto desde umha perspectiva urbana e “central: casas ocupadas, chabolas, vivendas de imigrantes ou minorias étnicas…

No caso do nosso rural (e possibelmente em outros também), acho que há umha relaçom entre o jeito de reutilizar e dar novos empregos às cousas e mais o acelerado despovoamento. A falta de gente, e polo tanto de contexto social, impede que se sinalem, gerem ou lembrem as normas que marcam os usos “socialmente aceptáveis” das cousas. A falta de massa crítica facilita o desenvolvimento das atitudes mais extremas, individualistas extravagantes ou ousadas nos procesos de construçom ou decoraçom.

Cabe perguntar-se, a este respecto, polos processos de reutilizaçom e inovaçom na sociedade tradicional. A autonomia e a reutilizaçom constante dos bens nas casas familiares pode ser umha base desde a que se desenvolveu este fenômeno, aplicando umha lógica já implantada a novos elementos e dando pé a essas imagens chocantes para o espectador urbano. Até que ponto se reutilizavam as cousas quando nom havia plástico nem uralita, em quê jeitos? Falta o investigar. Mas com certeza existia um maior controlo social no jeito de construir, umhas normas bem marcadas sobre o quê fazer ou como o fazer, que imos perdendo.

A desertizaçom produz monstros.

E fique claro que, como outros, nom considero que seja este um elemento a suprimir, mas sobretudo, algo a compreender.

5 reflexións sobre “O feísmo desenvolve-se no baleiro

  1. “A decência que obriga os urbanistas a não falarem mais da «cidade», que destruíram, mas antes do «urbano», devia também incitá-los a não falarem mais do «campo», que já não existe. O que há, no seu local e lugar, é uma paisagem exibida às multidões stressadas e desenraizadas, um passado que se pode bem encenar, agora que os camponeses foram reduzidos a tão pouco. É um marketing que se estende sobre um «território» onde tudo deve ser valorizado ou transformado em património. É sempre o mesmo vazio gelado que atinge até os campanários mais afastados.”
    A insurreição que vem, Comité invisível
    http://edicoesantipaticas.tumblr.com/#12924617104

    Estou de acordo contigo, a desertizaçom produz monstros, mas estes somos nós, nom quem descontextualiza umha banheira transformando-a numha pia para o gado.

    Na França (Bélgica, Holanda, Alemanha, etc.) o sistema foi mais eficiente do que aqui, lá tudo é metrópole (morte à vez do campo e a cidade), basta dar umha volta por algumha das suas pequenas vilas rurais, para nom acharmos praticamente diferença entre estas e as contornas das vilas grandes e cidades.
    Mas na Galiza, as nossas elites, tam medíocres no seu, nom forom quem de atingir todo o território. No País ainda ficam labregos, a maioria envelhecidos, mas todavia resistentes à uniformizaçom e o que é mais importante, com capacidade para descontextualizar o deserto metropolitano no que a maioria moramos.

    Realmente compreendo a reaçom contrária da maioria das pessoas perante as mostras do “feismo” galego, agora reformuladas coma “Chapuzas Gallegas” polos porcos de pé do cortelho intelectual do Polígono de Sabom.
    É inegável, fode muito vermos reflectido nesses pequenos actos de dissidência criativa das gentes do rural, o enorme valeiro de circunvalaçons, Marinedas Citys, e centros gentrificados, no que se transformarom as nossas cidades.

    Dios como me quenta a condanada La Voz de Galicia…

    ^-^

  2. Por certo Germám, se me dás permissom, sumo a futuras argumentaçons a ideia de feismo coma descontextualizaçom, e despovoamento como catalisador da descontextualizaçom ao se diluir a norma do “socialmente aceitável”.
    Gostei delas 😉

    • Soma o que quigeres, para isso estám.
      Do anterior, efetivamente deixou-se muito de lado na análise do tema até quê ponto o mal nom está na olhada “metropolitana”. Muito bom também o do Comité Invisível e a patrimonializaçom-cenificaçom do rural.
      Também muito interessante o conceito de reutilizaçom como resistência. Quiçais se poida interpretar mais como síntoma de que se quer resistir: umha estética da resistência, umha reclamaçom pública de criatividade e da existência de jeitos alternativos de tratar as cousas. (Tenho pendente ler o Scott para afondar em estas questões .-http://en.wikipedia.org/wiki/James_C._Scott-
      Há que seguir falando disto… está a se me ocorrer algumha cousa ao respeito disto que temos de falar…

  3. Pingback: Olhada | Apontamentos do natural

  4. Pingback: Rural: terra baldia | Apontamentos do natural

Os comentarios están pechados.