A centralidade da matança

Dá-me a impresom que a matança do porco está a ocupar um espaço crecente no imaginário coletivo, que está a se consolidar como um risco identitário importante para definir o que é ser galego.

Apoia esta ideia a enorme cobertura mediática que se lhe dá ao facto ano trás ano (hoje mesmo há um especial de várias páginas, nom accesível na rede, no Faro de Vigo), salientando o seu carácter ancestral e ritual.
Pode-se mentar também a sua presença em produções culturais contemporáneas como o famoso Fai un sol de carallo dos Resentidos ou o filme A matanza caníbal dos garrulos lisérxicos (entre outros) (quiçais foi nos oitenta os urbanitas redescobrérom o potencial gore e exótico que tinha a matança para a sociedade contemporánea). Por nom falar de todos os estudantes de secundária e ensino superior, que fam trabalhos audiovisuais ou etnográficos sobre esta tarefa, amosando o relativo alheamento que existe sobre ela.

Em geral, acho que está a se consolidar como umha celebraçom ou tarefa agrária central no calendário anual do agro.

De xeito semellante ao que acontece coa celebración da festa patronal nas aldeas (tal e como sinala Xoán Carlos García Porral -tenho o livro por rematar), enquanto outras celebrações do ciclo anual esmorecem, esta ganha força.
Penso que existe umha relaçom entre a desertificaçom e envelhecimento do rural e a progressiva centralidade da matança no calendário.

Nesse sentido, criar um porco é umha tarefa mais accesível do que muitas outras para gente de idade ou que tem outros trabalhos como levar umha horta. Umha só pessoa pode fazê-lo, mentres que lhe resultaria mais complicado, por exemplo, manter vacas ou soster leiras de grande tamanho. Isto favorece que se continue com este labor mentres outros desaparecem.

A maiores, a carne da matança distribue-se entre família e amigos, criando umha autêntica rede de reciprocidade. Está por ver até que ponto estes produtos contribuim à dieta geral da povoaçom galega (e acô é de mester lembrar o estupendo artigo de Xoán Carlos Carreira sobre a Agricultura Invisível). Isto abre a porta ainda a analises sobre a importáncia que tem o arcom congelador no mantemento de laços entre gerações e entre o ámbito urbano e rural no nosso país (umha mostra está nas reclamações pola carne perdida cando o ciclom Klaus.

Em qualquer caso, nom há dúvida de que, seja polo reparto de carne, por interesses na herança ou simplesmente por carinho familiar, a matança é umha das escassas tarefas que anualmente reclama com sucesso desde o agro, e dum jeito generalizado, mao de obra urbana, o qual contribue a que seja vista, desde a cidade, como um punto central da identidade tradicional galega.

Ao tempo, é também possivelmente um dos elementos mais estranhos para a mentalidade contemporánea: a violência direta contra um animal, a sua preparaçom coletiva, a manipulaçom do cadáver… Sem esquecermos elementos rituais ou simbólicos vencelhados, consciente ou inconscientemente à celebraçom.

A gente nom vém da cidade para a malha, nom buscam atopar a espiga rainha ao esfolhar o milho, nom participam nos Cantares de Reis, e apenas nalguns lugares voltam para celebrar o Entroido. Aparecem para os jantares das Festas Patronais (e há que gastar cartos para lhes dar um bom espetáculo) e mais para matar.
Nom digo que nom ocupasse um papel importante a matança no seu dia, mas nom sei até que ponto nom é resultado da urbanizaçom que, cada vez mais, se vaia vendo a matança como um rito, como um elemento definidor do ser galego.

2 reflexións sobre “A centralidade da matança

  1. Comentários via Facebook:

    Orestes Currás Ordóñez Concordo nalgunhas cousas e discrepo noutras, pero así brevemente, pode que medrase a atención mediática e benvida sexa. Eu desde logo contribuín todo o que puiden a darlle cobertura. Sen avaliar o seu potencial identitario un feito no que participan milleiros de persoas en milleiros de lugares de todo o país, ten que merecer un espazo nos medios, igual que a declaración da renda ou calquer outro asunto colectivo. Durante moitos, que eu lembre, esa actividade común non existiu para os medios.
    28 de dezembro de 2012 às 15:13 · Curtir (desfazer) · 1

    Germám Ermida Aha. Boa apreciaçom sobre a cobertura mediática, tens razom. Em qualquer caso, vaia por diante que nom ataco o facto de se cobrer desde os medios nem que se consolide como elemento identitário, nom tem mal nengum. Apenas penso que está a mudar a sua consideraçom no seo da sociedade. Obrigado polo comentário!
    28 de dezembro de 2012 às 16:05 · Curtir

    Maruxa Xa Germám……… ….. não posso acreditar pa!
    28 de dezembro de 2012 às 20:47 · Curtir

    Germám Ermida por? parece-che umha defesa carnívora? nom podo nem sequer falar da situaçom?
    28 de dezembro de 2012 às 20:55 · Curtir

    Maruxa Xa parece-me, e não conheço ninguém (normal) que volte a casa para ver
    a matança!
    28 de dezembro de 2012 às 20:59 · Curtir

    Germám Ermida pois conheces gente que volta a fazer a matança. E som muitos. Nom estou a defender a matança como um elemento identitário. Estou a sinalar que acho (por presença mediática e reivindicaçom em manifestações culturais) que está a colher peso como tal. Explico-me? Nom som eu a dizer que devemos tomar a matança como bandeira nacional, simplesmente analiso brevissimamente por quê acho que está a colher peso no imaginário coletivo.
    28 de dezembro de 2012 às 21:01 · Curtir

    Maruxa Xa não não não…bem sabes que esa ¨gente¨não é representativa duma tendência social….são ¨exquisitos¨
    28 de dezembro de 2012 às 21:03 · Curtir

    Maruxa Xa na minha aldeia a tendência é a contraria….cada vez ha menos matanças, e o vicinhos ja não intercambiamos raxos nem chouriços nem rixóns nin cousas destas..
    28 de dezembro de 2012 às 21:05 · Curtir

    Germám Ermida já gostavas tu… se visses as 6 páginas do suplemento de hoje
    do Faro, amplamente ilustradas, nom havias pensar isso. Se bem é certo, a seguir o comentário de Orestes Currás Ordóñez, que nom é apenas umha questom de meios de comunicaçom: pensa em toda a gente que conheces que tem na casa e partilha elementos da matança (a mim mesmo chegam-me de quando em quando). Na tua aldea de certo es ti o elemento disruptor que minimiza as matanças. De todas todas, nom tem que ver que se faga menos (que se fai, há menos gente) com que se adopte mais como símbolo identitário. Pensa em como se reivindicou a música popular quando estava a esmorecer, ou as embarcações tradicionais quando já nom ficava nengumha…
    28 de dezembro de 2012 às 21:07 · Curtir

    Germám Ermida outra cousa é que tu nom te identifiques, por suposto. Eu, por exemplo, nom gosto muito da gaita e continuo a ser galego, já ves…
    28 de dezembro de 2012 às 21:08 · Curtir

    Maruxa Xa Eu nom minimizo nada, que tenho de ocultar as minhas inclinacions…ou que pensas que vou liberando porcos das cortes?xD pero a gente que queda (pouca) segueo a fazer como sempre, nom porque reivindiquen nada, e cando morran, os seus fillos non o seguirán facendo,de feitoos fillos dos xa mortos, non o fan. E se nom podemos ir fazer enquisas a pe de campo….e nom me vaias comparar a música ou os barquinhos con matar un porco desa forma!!
    28 de dezembro de 2012 às 21:13 · Curtir

    Maruxa Xa E eu nom me identifico nem con eso nem cos que se matan ¨a granel¨ , polo tanto exclúome e non conto.
    28 de dezembro de 2012 às 21:15 · Curtir

    Germám Ermida homem, num sistema de símbolos identitários som totalmente comparáveis, como outros se podem definir por beber os jugos dum cadáver, por comer ou nom comer porco ou vaca, por obrigar a tapar as mulheres ou por dançar o hula. Nom me meto na discussom de quanto ético (na perspectiva ocidental) é cada um dos factos. E nom digo que no campo o reivindiquem. Se acaso empregam-no para receber mais visitas e manter vencelhos com a família da cidade, (um dos motivos polos que sinalo que está a colher umha maior importáncia simbólica). Acho que estamos a falar desde paradigmas diferentes, nom é desacordo mas incomprensom.
    28 de dezembro de 2012 às 21:19 · Curtir

    Orestes Currás Ordóñez Eu directamente defendo que a matanza sexa bandeira e símbolo identitario. Que viva a carne! E non esquezades que a lei obriga o aturdimento previo. Nos touros aínda non é obrigatorio
    28 de dezembro de 2012 às 21:43 via celular · Curtir

    Salvador Sampedro Concordo com a Maruxa Xa e acho muito exagerado dizer que som muitas as pessoas que voltam a fazer a matança. O teu artigo, como ti bem defines no segundo parágrafo, seria bom para os oitenta ou principios dos noventa, uma boa reflexom do que aconteceu naquel tempo, já que a matança doméstica é um costume cada vez mais minoritário nos nossos dias (por muitos motovos, mas também porque é um trabalho duro). Também creo que é um erro assumir um fenómeno que se conserva em áreas ruarais em Galiza, como algo que abrange o pais todo. Em conclusom, nom miro eu hordas de galegos a entupir a ap9 para matar cochos com a família, e também nom miro bandeiras penduradas das janelas em defensa da matança. Mas gostei do tema, interessante, falamos.
    29 de dezembro de 2012 às 01:19 · Curtir

    Maruxa Xa A lei obriga ó arturdimento…….nom é isso un sacrilexio do rito????????e sabemos todos que non se cumple. É que uns tenhan “tradicions” mais crueis que as nosas non as fai mellores, como que que che corten duas pernas non fai bo ó que so che corte unha, verdade????
    Falamos.
    29 de dezembro de 2012 às 02:37 via celular · Curtir (desfazer) · 1

    Maruxa Xa E Germam, definitivamente, non sei que aldeas visitas ti! xD
    29 de dezembro de 2012 às 02:39 via celular · Curtir

    Germám Ermida mima quanta polémica. A ver se me dou explicado: 1- a matança, lá onde se conserva (sim, esmorece, como todo o rural) incrementou a sua importáncia nas tarefas da casa polas qüestões já comentadas, fronte a outros labores. 2- a produçom cultural derivada (podemos incluír mesmo a festa do cozido de lalim e o seu monumento ao cocho) e a cobertura mediática (reportagens explicando o processo polo miudo, entrevistas a matachins etc etc) contribuem a que se perceba de jeito geral como algo ancestral, como umha tarefa que em boa medida define a vida agrária galega. E por ancestral e por agrária considera-se como um elemento próprio que ademais nom existe em outros lugares, e que polo tanto é um elemento identitário. Para isto nom compre nem que seja um fenómeno que implique a maioria da povoaçom nem que se pratique muito. Nem tampouco que seja umha reivindicaçom explícita. A queimada e a gaita também definem “o galego” e nom som maioritários entre a populaçom. Dalgum jeito, a matanaça institucionaliza-se como parte do “ser galego”. Logo cadaquem pode-se identificar mais ou menos com o tema. Se nom importades, hei colar o debate este, bem interessante no blog, acho que pode ajudar a compreender melhor o posto. Obrigadooooo.
    29 de dezembro de 2012 às 11:51 · Curtir

    Germám Ermida o pensamento vai na linha destoutro post: http://donatural.blogaliza.org/2012/11/29/filhos-de-fraga/
    29 de dezembro de 2012 às 11:52 · Curtir · 1

    Salvador Sampedro O que ti apontas é um dos motivos polos que eu nom considero qeu se consolide a matança como elemento identitario. Xa que há umha sustituçom dumha dereita folklorista por umha dereita etnocida. Além disto, também compre dizer que o perfil das pessoas mais comprometidas com o pais, nom concorda muito com a defensa de algo tam bárbaro…
    29 de dezembro de 2012 às 17:02 · Curtir · 1

    Germám Ermida a constituiçom dos elementos identitários nom é cousa apenas de elites políticas nem de pessoas comprometidas. Geram-se por um coletivo que se identifica, mais ou menos conscientemente com eles, polos meios de comunicaçom que os reforçam ou nom, pola geraçom de produtos culturais derivados, pola institucionalizaçom ou nom. Pensa na banda de gaitas de Ourense e em Fraga, sim, mas também no churrasco e em como aparez nos quadrinhos de Luís Davila (e como estes som recebidos e replicados), nas camisolas de Rei Zentolo (várias das quais som sobre a matança), no Xabarin Club, em Estrelha Galicia ou em muitas das cousas que aparecem nos anúncios do Gadis. Muitos destes elementos nom som reivindicados polas pessoas comprometidas polo país, mas estám ai e muita gente as reconhece em maior ou menor medida como próprias. Ao tempo, as pessoas comprometidas proponhem os seus próprios símbolos (estreleira) músicas, lemas, litúrgias ou elementos que nem sempre som acolhidos pola coletividade. Nom sei se me explico. A identidage gera-se de jeito dinámico, por umha acçom conjunta da política, a sociedade, os mídia, a produçom cultural, o jeito no que nos olham desde fora.
    29 de dezembro de 2012 às 19:45 · Curtir · 1

    Germám Ermida insisto. O que quero dizer com que está a se consolidar como símbolo identitário é fronte a outros labores agrários já esvaídos e mais fronte à sociedade tradicional, onde acho que nom tinha a importáncia simbólica que tem agora, precisamente porque existiam outros labores nos que se desenvolvia a reciprocidade e as redes de intercámbio de produtos. A possibilidade que achega a matança de manter conexões entre rural e urbano e ao contrário é o que, penso, facilita em boa medida essa emergência, relativa como símbolo identitário. Nom penso que todos os galegos se identifiquem como tais por matar porcos. Acho que, perguntados por elementos próprios que identificam o país, a matança apareceria sem tardar muito.
    29 de dezembro de 2012 às 19:56 · Curtir · 1

    Germám Ermida http://www.reizentolo.es/es/camisetas-hombre/details/461/30/camisetas-hombre/camiseta-chico–porco.html
    camiseta chico: porco
    http://www.reizentolo.es
    Camiseta Chico: Camiseta Porco. En
    29 de dezembro de 2012 às 20:06 · Curtir · Remover visualização
    Germám Ermida http://www.reizentolo.es/es/camisetas-hombre/details/202/30/camisetas-hombre/camiseta-chico–cousa-nostra.html
    camiseta chico: cousa nostra
    http://www.reizentolo.es
    Camiseta Chico: Camiseta Cousa
    29 de dezembro de 2012 às 20:07 ·

    Salvador Sampedro Pois é, mas eu nunca neguei essas obviedades, inda que o que si nego é que seja um elemento novo, que “a matança do porco está a ocupar um espaço crecente no imaginário coletivo” mais alá duma produçom cultural minoritaria. Que é excessivo dizer que “a matança é umha das escassas tarefas que anualmente reclama com sucesso desde o agro, e dum jeito generalizado, mao de obra urbana, o qual contribue a que seja vista, desde a cidade, como um punto central da identidade tradicional galega”, nego que “cada vez mais, se vaia vendo a matança como um rito, como um elemento definidor do ser galego”. Mas, para rematar o conto, cando é que me trae Belén uns chourizos da aldeia?

  2. Pingback: A contradiçom do trato aos animais | Apontamentos do natural

Os comentarios están pechados.