Novos mitos

Fonte: La Voz de Galicia

Fonte: La Voz de Galicia

Reconheço que adoro as intromissões da fantasia na realidade. É por isso que me parece tam interessante esta nova sobre a apariçom dum graffiti cum símbolo de Harry Potter num dólmen viguês.

Primeiro de tudo: é umha animalada. Dito.

Agora tento explicar por quê acho interessante.

1- Equipara um elemento histórico patrimonial cum símbolo fictício de cultura pop.
Há algo poético aqui ou? Um reclamar o gosto popular fronte á cultura oficializada, sancionada e pétrea. Dizer que é tam real para alguém os símbolos dum conto como umha construçom que leva cinco milénios ai chantada e que tem a sua aura de magia e mistério.

2- É umha crítica irónica ou é umha canle de espiritualidade?
É dizer: A ideia do autor era fazer essa crítica e equiparar dolmen com Harry Potter ou realmente a pessoa canaliza em esses símbolos a sua vissom de sacralidade ou espiritualidade. Também nom é nada novo.

Do mesmo jeito que citamos o “Ne vus sanz mei, ne mei sanz vus” de Tristán e Isolda ou que as lápidas de Tolkien e a mulher rezam “Beren” e “Luthien”, levamos séculos a nos identificar com as histórias de ficçom, poemas e canções, empregamo-las para gerir os nossos afectos e crenças e dizer o que queremos. Muitos de nós identificamo-nos com estas criações mais do que com símbolos oficialmetne sancionados como a religiom. Pensemos an Força de Star Wars e em toda a gente que agora já se define como Jedi.

Nom me resulta tam alheio entom o facto de que alguém poida sentir que esse símbolos tenhem poder, que viva o facto de os inscrever num monumento megalítico de 5.000 anos como um acto mágico.

3- Novos mitos?
Nom se trata de símbolos wiccan, nem satánicos, nem trísceles nem outros elementos que se podem considerar mais ou menos inseridos numha tradiçom culta da magia. Estám Harry Potter, ou Tolkien, ou a Força a se constituír como novos mitos? Se pensamos que afinal todos os mitos nascérom como criações de ficçom e que foi a sua adopçom social o que lhes deu o seu carácter sacro, também nom é tam estranho. A muitos há-lhes parecer mais normal entoar o Esconjuro da Queimada como símbolo identitário galego, ou falarmos de meigas e de churrasco como símbolos nacionais cando também som invenções bem recentes.
Cómpre sermos conscientes também de onde venhem os referentes para estes novos mitos, e se devemos ser quem de contarmos com mitos próprios de cara ao futuro (e quem os está a promover).

4- A própria narraçom do facto
No jornal atopamos tanto espaço dedicado á explicaçom dos símbolos fictícios como a falar da importáncia do monumento megalítico. A nova equipara também os elementos fictício e patrimonial.

Dá para muito pensar. Sinto-o pola mámoa, mas parece-me altamente revelador.

(Para mais info, revelám-me que o suposto 7 na realidade é a Marca de Caím da série de TV Supernatural XD

O sentido do Obradoiro

wikipedia Praza_do_Obradorio

Nom tenho muita ideia do que se fazia lá antes, mas tenho claro que por muito tempo a Praça do Obradoiro deixou de ser praça e se transformou apenas num lugar de tránsito, num espaço para salientar a monumentalidade dos (poderes e) edifícios que a arrodeam. Durante muitos anos nom havia nada para fazer lá. Nem actividades, nem espaços confortáveis para estar, nem recunchos que reutilizar (rodeados por toda a parte de poderes oficiais, vigilados). Na Quintana, quando menos, podia-se tomar o sol nas escaleiras, tocar a guitarra, fazer botelhom, atopar-se. Lá, mais abrigados fisicamente e menos controlados pola oficialidade, no pátio traseiro, literalmente, da catedral, era onde ainda jogava algum neno e havia quem, a bordear a marginalidade, fazia dum dispositivo para se trasladar como som as escaleiras um lugar de acomodo. Os mais convencionais ocupavam um banco. Mas, quem sentava no Obradoiro.

A crescente maré de turistas que desde há um quarto de século vai inçando o casco histórico acabou por lhe dar sentido à praça. A ocupar em primeiro lugar (como é habitual) os espaços que a cidadania deixa mais baleiros, os visitantes recuperárom o sentido aquele da praça como plateia da monumentalidade. Ocupárom-na sem ter mais competência que os artistas e vendedores que lá actuam, inseridos também no próprio espectáculo da cidade.

O Obradoiro é hoje um lugar que serve fundamentalmente para olhar arredor. Tem esse sentido. E volta ser umha praça, enquanto há gente que a emprega, senta (a falta de espaços mais especificos), no meio do chao. Tiram fotos, recriam-se com a contorna, atopam-se, mercam e descansam. Fam estas cosusas fora do seu contexto próprio (no bordo da marginalidade também) de jeitos que os locais nom pensariam, cumha reputaçom e umha imagem que manter.

Nom é apenas isso já a praça. É cenário habitual de cánticos improvisados, orações, visitas guiadas. Nos dias de festa, como nom, também dos eventos oficiais, e mesmo é suporte publicitário de diferentes marcas que instalam de jeito pontual carros e aparelhos vários. Mas dia a dia, nom se pode negar que som os turistas os que lhe recuperárom o sentido à praça, os que voltárom fazer dela um lugar em sim, nom apenas umha área pola que se passa a correr entre destinos. Dá para pensar também, no jeito no que se ocupam os espaços, em até que ponto pode vir também gente de fora dar-lhe sentidos novos às nossas cidades.

Dias das Letras

Logo duns aninhos a repassar os Dias das Letras Galegas, interessado em particular no jeito no que se celebra a efeméride, semelha-me que os eventos desta data reflictem em boa medida e evoluçom da nossa própria cultura.

Deste jeito, este ano a celebraçom de Manuel Maria semelha evidenciar a importáncia dos produtos culturais para cativos na profissionalizaçom do sector cultural. Em esse sentido, muitos artistas e companhias aproveitárom o potencial de Manuel Maria para a sua própria criaçom artística, com a ideia de que os trabalhos sobre este autor haviam acadar umha importante demanda este ano (e tal semelha). Como efeito colateral desta busca de rendibilidade (totalmente legítima) temos que o que em outros anos podiam ser homenagens de associações e concelhos artelhados em boa medida em base a trabalho voluntário de colectivos locais, passam a ser eventos “contratados” (e poida que mais uniformes). Da outra banda, devemos pensar que isto permite a supervivência de profissionais da música e das artes escénicas e que ao tempo dá pé a existência de obras artísticas de grande qualidade. O fenómeno tem prós e contras.

Ao tempo, podemos contar as empresas como parte da sociedade civil? Em esse sentido, as propostas deste ano continuam a tendência doutras celebrações anteriores nas que semelha que se lhes retira às instituições oficiais (Xunta, CCG, RAG, Universidades, Deputações) o protagonismo ou a exclussividade sobre a celebraçom e (para mim o mais importante) a interpretaçom que se fai dos autores. Assim, este ano temos um Manuel Maria reivindicado como autor para cativas, e nom apenas o poeta ou o creador comprometidos que se nos vendia até o momento. E isto responde a um interesse comercial, mas também situa o autor em relaçom com as inquedanças actuais da nossa cultura, que semelha estar especialmente focada ao problema da transmissom intergeracional da língua.

No entanto, devemos ser conscientes de que a celebraçom do Dia das Letras está a amosar umha importante plasticidade ano a ano (quando menos desde que eu o sigo polo miudo). Logo da multiplicaçom de agentes implicados que se deu o ano de Novoneyra, a explossom que foi o de Lois Pereiro, cumha inédita participaçom social, mudou em boa medida as perspectivas sobre o que poderia ser um Dia das Letras diferente, artelhado além das instituições.

Desde aquela cada homenageado marcou em boa medida o jeito no que a sociedade empregava a figura. Deste jeito, Filgueira ficou em 2015 de novo nas maos das instituições (embora provocou interessantes reacções alternativas), e Paz Andrade nom conseguiu arrastar muitas propostas, para além do movimento que se produziu arredor a ILP com o seu nome.

Si acadou umha maior pegada Vidal Bolaño, cum protagonismo partilhado entre companhias, instituições e sociedade civil. Destacou o caso de Diaz Castro. Quiçais por ser um autor maiormente por descobrir, aproveitou-se enormemente o potencial inspirador para diferentes criadores, nesta ocasiom cum peso especial do ámbito audiovisual. Em este caso é de destacar que se bem o sector apostou por comemorar o autor, numha importante parte dos casos as produções desenvolverom-se de jeito altruístas e voluntário. Visibilizar o seu trabalho ou denunciar a situaçom de precariedade fórom em certo jeito as mensagens que se achegárom com estas propostas, do mesmo jeito que a escena do país se reivindicou a través de Vidal Bolaño.

Em geral, a resumir estes anos, semelha que a sociedade civil e as empresas estám a colher, nos casos em que olham por onde, a iniciativa para celebrar os autores homenaxeados e os interpretar desde as problemáticas actuais da nossa cultura. A crescente multiplicidade de agentes vai acompanhada dumha aparente consolidaçom profissional no campo cultural. Até que ponto o Dia das Letras vai ficar como umha “produçom cultural das Letras”? Há depender do autor, semelha.

A identidade que vém

mapa_galicia_identitaria

Apenas é mais um síntoma, mas acho que este mapa resume em boa medida umha perspectiva de identidade galega que está a se afiançar nos últimos anos. A gastronomia, o rural, as vacas (que também as há em Astúrias, ou em Suíça p.ex), certas iconas tradicionais e as festas de interesse turístico, mesturadas com algumhas pegadas históricas emergem como riscos definitórios. E a língua fica reduzida a mais um souvenir, a um elemento folclórico mais, um produto simbólico que se exprime unicamente en quatro palavras icónicas. Resultado em grande medida dum olhar alheio, esta récua de ideias está a ser, no entanto, apropriada por umha boa parte da povoaçom.

Ai temos bons exemplos. Umha identidade feita à base de enumerações, sem artelhar entre sim nem exigir coerência, em possitivo, de anúncio.

Para além da interpretaçom dumha certa alienaçom coletiva (que acho nom é muito produtiva), acho que esta perspectiva amosa umha certa madureça da nossa sociedade (de entendermos madureça como assimilaçom à visom occidental e urbana). O peso nacional deixa de ser determinante na configuraçom da identidade individual e passa a se considerar um vetor mais com o qual se definir entre muitos outros. A identidade passa a se jogar dum jeito diverso, no qual compre tomar posse sobre como se sente o país, mas sem que essa questom vaia cumprir um papel fundamental.

Aliás, ao ser ainda a nacional umha identidade conflitiva (de cara á propria pessoa, ao exigir coerências como a da língua ou determinadas escolhas de consumo cultural, como de cara a outros que nom a compartem), acaba se gerando umha proposta “nom conflitiva” de identidade que permite sentir-se galego e estar orgulhosos (ou avergonhados) sem ter que apanhar o “pack completo”. Sem música tradicional, sem vivência direta do rural, sem ler autoras do país, sem falar galego (como amosam alguns dados deste interessante estudo). Como já dizia há tempo, o galeguismo passa a ser um estilo de vida, umha opçom individual se definir como pessoa entre muitas outras, como os gostos musicais, a roupa, os hobbies ou o trabalho. Isto tudo numha sociedade na que os indivíduos buscam, polo geral, identidades nom conflitivas e que tenhem com elas que procurar respostas (perspectivas) ante situaçom geral de despovoamento e extinçom (quiçais tenhem já problemas abondos como trabalhadores precários como para engadir também outras luitas).

Isto está a ter também o seu reflexo na evoluçom da esquerda política no país, e na possiçom que a identidade ocupa nos programas. Ou na “exigência” dumha determinada identidade pola cultura política de partidos concretos.
Mais plural, fluída, menos categoricamente galega. Velaí a identidade que vém.

Sobre os hábitos culturais esses

Logo de botar uns dias a peneirar e interpretar estes números , segundo os quais os nossos hábitos culturais (na enquisa maiormente assimilados a consumo cultural) estám por detrás da meia estatal, jordem-me várias ideias, como sempre aventuradas e sem base (apontamentos em fim).

1- Nesgo urbano. Acho que inevitavelmente um estúdio como este conta cumha infrarrepresentaçom do rural galego. Dispersom, dificuldade de obter respostas, qualidade das mesmas…
Por aqui, na página 4 explicam a seleiçom de mostras. Para quem as entenda… (“El tipo de muestreo es bietápico con estratificación de unidades de primera etapa, considerando cada comunidad autónoma una población independiente. Las unidades de muestreo de primera etapa fueron las secciones censales y las unidades de segunda etapa la población de 15 años en adelante. Dentro de cada comunidad autónoma se
realizó una estratificación de las unidades de primera etapa conforme al tamaño del municipio al
que pertenece cada sección. El tamaño de la muestra teórica se situó, aproximadamente, en 16.500 unidades de segunda etapa, personas de 15 años en adelante. Los tamaños muestrales de primera etapa vinieron condicionados por el número medio de entrevistas por sección, que se fijó en 14 considerando fundamentalmente razones de coste y eficacia en los trabajos de campo….). A mim supera-me. E o caralho é que os pensamentos que me jordem dos dados, levam-me a pensar no rural.

2- A consideraçom de actividades culturais no estudo está, como já comentei, orientada fundamentalmente às indústrias culturais (a incluír mídia) e às propostas mais vencelhadas à ideia de “alta cultura” (museus, leitura…). Com esta orientaçom, fai-me pensar: a quê se dedica entom a gente na Galiza, se nom fai estas cousas? Pensa um em conversas, visitas, café, estar com gente, manter comunidades. A gente que canta num jantar ou realiza pequenas obras de artesania constestou a considerar estas actividades culturais? Contar contos e histórias cotizam neste inquérito?

3- Destacamos no consumo mídia de comunicaçom. É umha questom de acceso? A mim quadra-me cumha sociedade em cámbio social acelerado no que grande parte da povoaçom emprega imprensa, rádio e TV como jeitos de tentar compreender a realidade. Baseio-me fundamentalmente em casos concretos, conhecidos e próximos. (Sim, por compreender também considero ler as esquelas).

4- O acceso como problema aparece sinalado em vários dos apartados (museus, bibliotecas). Nom no cinema, se bem outros estudos sim apontam a inexistência de salas na proximidade como um dos motivos para nom asistir. É a dispersom povoacional que lastra esse consumo?

5- No entanto, o desinteresse aparece como principal motivo para nom desenvolver as sinaladas prácticas culturais. Entom será que a oferta nom conecta pola povoaçom. Quem é o responsável? Como se poderia arranjar?

6- O maior interesse polas actividades criativas, responde ao mantemento de formas mais tradicionais de produçom e consumo (menos mediados por administraçom e indústria) cultural?

7- Os culturetas existem. Gente que lê tudo o que nom lê o resto da povoaçom, que vê filmes na casa desesperadamente e que escuita música a barrer… De acordo, nom som as mesmas pessoas, mas a concentraçom destas e doutras atividades (menos gente do que a meia emprega mais tempo) deve sinalar algo.

Sei lá enfim. Era bom irmo-lo pensando…

A ideologia é questom de gostos

Penso que, mesmo nesta altura da vida, e por muito que elaboremos as nossas ideias gostamos de cousas de jeito mais bem primário. É depois que construímos justificações ideológicas. Definimo-nos como de esquerdas, hipsters, culturetas, conetamos com ideias semelhantes, deixamo-nos levar por gostos de arredor. Mas acho ainda que as afinidades começam de jeito primário. Que é por atoparmos sensações da infáncia, respostas a angúrias íntimas, lembranças a momentos vividos em certo discurso/produto/livro/filme/ideologia/grupo que o adotamos e nos identificamos através dele.

Assim integramos o nacionalismo como umha defesa da aldeia da nossa nenez, como se estivéssemos a defender os nossos avós através das reivindicações. Mesmo que afinal saibamos que nom é exatamente isso o que imos conseguir, de conseguirmos algo. Na mesma, som os gatos, cans, vacas da nossa vida os que se agocham no nosso discurso animalista, e as paisagens primeiras, e polo tanto para nós incorruptas que conhecemos nos passeios em bicicleta na puberdade as que tomam forma na nossa luita ecológica. Conetamos sem sabermos bem por quê com cousas que na realidade nos falam doutras histórias. As nossas rebeldias primárias, a sensaçom de poder quando nom comemos o que nos dam ou nos negamos de crianças a repartir os bicos que nos pedem estám ai nas nossas escolhas. O consolo dum lugar. O agarimo dado na língua na que nos falou alguém. Do mesmo jeito, quantas más experiências cumha pessoa concreta marcárom para sempre de jeito negativo a sua ideologia e os seus gostos para nós.

Afinal, queiramos ou nom, mantemos preferências emotivas inconscientes polas cousas, por todas elas, lá no fundo. Cores, materiais, objectos. O número 2 mantém para mim o engado de quando pequeno, agarimoso fronte à fascinaçom pola estranheza do cinco, a agressividade do 3 ou a atonia do 4. Do mesmo jeito, há recantos, sons, céus, momentos que espertam diferentes sensações. E aí também as ideias, os personagens, as declarações. Filtramos também a gente no mesmo critério, por muito que logo elaboremos a nossa reaçom, e mesmo possivelmente integremos cada nova pessoa conhecida num catálogo limitado de arquétipos que elaboramos na nossa infáncia (primeiras amizades, companheiros de escola…).

Assim, dalgum jeito atua umha estranha sinestésia na base da configuraçom da nossa identidade. Acabamos por nos definir em questões derivadas daquela conexom primária, adotamos o construto teórico ao completo sem nos decatar, afinal de que apenas estamos (sempre) a luitar de jeito estranho
contra aquele eterno inimigo que é o tempo
na busca dum refúgio.

Sem saída

venecia

Ponhamo-nos tremendistas. Nom há saída. O turismo de massas invade progressivamente todos os destinos que poidamos pensar. Acabou-se Venécia, Florência, Barcelona, Compostela. Passa tudo a ser parque temático. A realidade fica restringida a urbanizações periurbanas, aldeias esquecidas zonas industriais feias e sem particularidades que ainda resistem a maré.

A planificaçom urbana fai-se a pensar nos turistas, a programaçom cultural e para turistas, a cidade passa a ser para clientes que deixam os cartos em troca a viver o que é um simulacro para o cal cada lugar que estar à sua altura. Toda França, Itália inteira é umha montra para tirar fotografias. As ruínas passam a ser atractivos, os bairros vermelhos som apenas engado para visitantes, Londres é um espectáculo a tentar semelhar o que agarda o mundo dele. Os lugares de vida passam a ser lugares que visitar e que olhar, cenários.

Nesse contexto, dificulta-se viver experiências diferentes nos destinos. Tudo é produto para o visitante. Tours organizados, serviços estandarizados, centros de interpretaçom e museus similares orientados a explotar supostas diversidades. Cá sol, lá história, arte, costumes, arquitectura.

Do mesmo jeito, produz-se o inevitável choque dos habitantes (feitos despraçados, refugiados de cidades que já nom existem, atrapados por uma mitologia projectada cara ao exterior e que nom reconhecem, privados dos seus espaços pola maré humana, pola exploraçom selvagem do lugar) e esses visitantes aferrados ao seu guia, aos estándares de qualidades, aos pacotes de desfrute concentrados. Esvae-se a opóm de socializar. As relações em destino ficam mediatizadas polo intercámbio mercantil, polo carácter de invasor e invadido, polas expectativas foráneas.

Faltará, penso desde há tempo, a criaçom de espaços onde se poida gerar o encontro. Será da minha experiência como anfitriom de Couchsurfing, por ter feito muitas vezes de guia, mas acho que é possível outro jeito de viver os destinos, da mao de habitantes que, à sua vez, se vem enriquecidos polo contacto com outros pontos de vista.

À sombra do espectáculo turístico, haverá tendas de recordos com trastendas onde tomar uns vinhos, espaços de bairro abondo sujos para que nom se achegue a massa, personagens que darám medo aos de fora. Periferisa enfim nas que transitar dum outro jeito. E parar, e tentar viver.

Mas nom será abondo. Compre gerar, a grande escala, outros relacionamentos entre a maré turística e os habitantes de qualquer lugar. Nom se pode vender a cidade inteira. Há que reclamar espaços para a comunidade, festas próprias que lembrem essa identidade própria fora do que contam as brochuras das oficinas de informaçom. Lugares de convivência onde se geram mitos, líderes e jeitos de convivência. Pactos com os visitantes, carris reservados, espaços libertados.

A maré sobe.

Os chiquitos

Há tempo que som tremendamente consciente da desapariçao do chiqueteo. Cada vez menos gente (sendo fieis à realidade, menos homens) saem tomar uns vinhos. Se bem pola noite ainda é possível atopar lugares onde se reúne a gente e toma umhas canecas, a atividade etílica que há cousa de 20 ou 30 anos se dava a meio dia e ao cair a tarde em qualquer casco histórico galego (e nom só) desapareceu. E também o figérom os bares que o albergavam. Conhecida é a reconversom dos locais do Franco en Compostela, entre outros casos.

Do mesmo jeito que outras mudanças de comportamentos (por exemplo do declínio das praças de abastos), este declíno pode-se relacionar cumha serie de factores.

– Por exemplo, o facto dos chiquitos a meio dia reflectiam umha disponhibilidade temporal dos homens, que saiam do trabalho e ainda tinham oco para passar pola tasca antes de ir jantar à casa e, em muitos casos, voltar a trabalhar pola tarde. Isto implicava tamém o mantimento dum contacto diário com a família e com conhecidos.
– Evidentemente, tanto o trabalho como o ócio e o domicílio estavam localizados relativamente próximos e céntricos, o que nos amosa o troco brutal no jeito no que habitamos os nossos centros urbanos, com cidades-dormitório afastadas e áreas especializadas no ócio (centros comerciais, certas zonas históricas) diferentes daquelas onde se desenvolve a actividade económica.
– As mulheres encarregavam-se do subministro de alimentos, e em muitos casos compatibilizavam isto com o trabalho ou bem nom trabalhavam. Dum jeito ou doutro dedicavam-lhe tempo a ir à compra por diferentes comércios ao longo da manhá e visitavam demoradamente as praças de abastos. E logo faziam o jantar. (Nom digo que isso estivesse bem).

Desde entom vimos mudanças como:
– A externalizaçom da criança em entidades profissionais
– A especializaçom das áreas urbanas (promovida pola especulaçom que afasta a gente dos centros, os próprios interesses económicos das companhias e as políticas que o permitem)
– A difusom dum modelo de trabalho próprio das grandes companhias (mais “eficiente”) ao conjunto das empreas
– A concentraçom do ócio/consumo em determinados tempos e momentos do dia e da semana
– As tentativas de optimizar a produçom com jornadas contínuas.
– A necessária incorporaçom da mulher ao trabalho, que para além da necessária realizaçom pessoal, dá-se também pola necessidade de maiores ingressos para cobrir os gastos derivados de vários destes procesos como a criança, os alojamentos mais caros, os carros necessários para mais depraçamentos diários ou mesmo o ócio vertebrado cada vez mais como consumo.

Dum jeito ou doutro, artelhamos as nossas vidas a partir de modelos optimizados de trabalho e consumo pensados para favorecer as companhias, nom necessariamente os nossos interesses. Centros comerciais, cadeias de restauraçom, cinemas, pacotes vacacionais, Internet, venda a domicílio. Dum jeito ou doutro, a maior parte da oferta comercial nom favorece a socializaçom fora dos círculos mais imediatos de amigos e família.

Deste jeito, com a desapariçom de espaços como o chiqueteo ou os mercados, finam também espaços de socializaçom abertos, onde se dava um contacto mais ou menso frequente com círculos alheios. Vizinhos, conhecidos de conhecidos, pessoas anónimas com as que se desenvolviam conversas casuais ou, com o tempo, habituais. Eliminam-se assim círculos de debate, espaços onde se gera opiniom, onde se escuitam diferentes visões e onde entram em jogo as perspectivas, a capacidade de convencer, o creto que se lhe outorga a interlocutores fisicamente presentes. Compare-se isto com a receiçom passiva dos mídia ou os debates anônimos ou ausentes de Internet.

Cabe interrogar-se pola homogeneidade ou nom destes espaços (na minha memória semelhavam-me bastante interclassistas, mas pode ser umha impressom errada), e mais polo jeito no que se gerava opiniom no seu seio. Nom devemos esqueçer que o anonimato também gera umha relativa maior liberdade e evita até certo ponto a pressom do grupo para obter consenso.

Nom digo que estivesse bem beber tanto, nem que a gente estivesse mais conscienciada de nada. Mas desde logo, algo de medo mete-me. Nom nos estám a faltar espaços deste tipo? Nom estamos a ceder vida de mais a prol do consumo?

(E dos parques infantis melhor nom falo, que me dam terror…)

Armas para mobilizaçom (III)

Fonte: Campogalego.com

Tal e como diferentes estudos tenhem salientado, atopámonos numha sociedade em transiçom na que, em muitos ámbitos, se mantém a desconfiança cara às instituições anónimas e busca-se personalizar as relações com as administrações. Cabe pensar que esse tipo de relações afectam também ás mobilizações sociais e à acçom política, que se mantém a desconfiança de cara a partidos, sindicatos e associações.

Na última semana, a coincidir com as mobilizações gandeiras, comentam-me o feito de que foi a partir dum grupo (reduzido) de Whatsapp que os tratoristas de Lugo de desvinculárom da mobilizaçom sindical e optarom por continuar com a sua acçom local.

De jeito similar a outros movimentos recentes, as redes sociais aparecem como umha ajuda das novas tecnologias a manter sistemas de relacionamento mais tradicional. Fonte a integraçom anónima do cidadám no partido ou na assembleia, mantenhem o acento na gente conhecida, na que se confia e a partir da qual o indivíduo se articula em movimentos colectivos. Permitem manter as estruturas de redes do mundo real e geram com facilidade outras novas no proceso das mobilizações. Algo a termos em conta à hora de pensarmos como implementar políticas públicas e gerar mudanças. Tirar do conhecido, das relações informais, das pessoas que actuam como referentes nalgum ámbito, dos nodos (temáticos, emocionais, espaciais) onde se atopa a gente em este contexto de transiçom.

Sei lá se tem algo que ver com estas nossas peculiaridades, mas semelha que lhe damos um uso especialmente intenso às redes sociais por aqui…

Narrar alternativas (algo óbvio)

De conversa sobre questões de género e outras, perfilamos (obrigado Isa), algumhas necessidades.
Nom abonda apenas com fazermo-nos conscientes da problemática e, a partir disso tentarmos reconstituír novas relações (embora é algo imprescindível).
Nom todos podemos (ou queremos) ser conscientes de tudo. Haverá que aposte por se conscienciar, comprometer e trabalhar a sua relaçom com o meio, a língua, o género, os animais, a autogestom ou com a alimentaçom. Mas nom podemos confiar unicamente nas consciências indivíduais sobre as diferentes problemáticas para mudar todas essas injustiças e discriminações.

Para construírmos novos jeitos de sermos e de estar com o planeta ou os outros, precisamos também gerar ferramentas que acheguem esses modos alternativos: narrações e histórias que, dum jeito menos consciente, facilitem às pessoas adoptar diferentes possições sem necessidade de as pensar muito. Contar novas histórias sobre relacionamentos alén dos estereótipos de Hollywood, amosar protagonistas diferentes. Nom se trata apenas de histórias que questionem as situações actuais, mas também exemplos mais facilmente adoptáveis e com os que nos poidamos identificar.

Empregarmos enfim ferramentas subliminais de educaçom com a que os sistemas actuais chegárom a se impor (e que também estám presentas tradiçom), sem exigir a todo o mundo (embora fosse ideal) plena consciência e deconstruçom dos seus comportamentos. Amosar outras maneiras possíveis de ser.

Há propostas nos ámbitos mais variados e mais ou menos debatíveis (na BD americana, na fotografia, no cinema, na escrita… mas falta muito ainda por fazer. E sim, compre fazer ficções, tenhem o seu poder, e resulta algo óbvio mas achei interessante apontar para lembrar.

Actualizado: Um exemplo aqui